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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Menos de 10% - Símeos, golfinhos, Lucy e Cinema


Dez é a percentagem que utilizamos da capacidade total do nosso cérebro. Apenas dez. Talvez seja possível utilizar um pouco mais, provavelmente com treino. Existe apenas um animal à face da Terra - aliás, e mais precisamente, no mar - que utiliza o dobro : o golfinho. As suas capacidades são diferentes das dos humanos, que utilizam os seus meros dez para pensar, falar, grandes feitos e muitos outros defeitos. 

Este mamífero marinho não a utiliza para os grandes (e)feitos que a Humanidade conseguiu, mas talvez seja por isso que não se possa culpar o golfinho pelas tantas e estúpidas guerras. Daí que o mundo esteja tão mal (ou bem) como está. Não é por causa deles que precisamos de reciclar tudo e mais alguma coisa, que o clima esteja completamente louco ou a caminhar para uma insanidade que mata milhares de pessoas e outros seres vivos - animais e não só - todos os dias. Como Humanos, queremos crer que o que fazemos todos os dias nos faz mais feliz. Mas quem nos diz que não são eles, os golfinhos, - esses outros animais que não são peixe nem totalmente carne - quem realmente é feliz? 

Isto a propósito de um dos filmes que vi o ano passado e que entrou diretamente para o meu ranking dos melhores desse ano : Lucy (2014) do visionário Luc Besson, que tem o dom de me maravilhar, primeiro, com os seus filmes, e depois me fazer refletir sobre eles e os assuntos que levanta através deles. Para mim, isto é bom cinema, mesmo que o faça com uma pitada - ou doses avantajadas - de ficção científica, que nunca se consegue saber se é assim tão ficção ou se deixa muito a desejar à ciência. Não importa. Neste filme, em que Luc mistura um pouco de Matrix com Star Wars, ou até Kill Bill, mais uma vez ele coloca a protagonista que dá nome ao filme, desta vez sozinha, sem um Bruce Willis que a ajude na vingança que procura (relembro a Mila Jovovich de O Quinto elemento). Vingar-se do quê?

A trama começa quando Lucy  - que também foi o nome que deram à primeira primata da História - é colocada numa situação de tráfico de CPh4, uma substância que cria micro explosões no cérebro e alucinadamente aumenta a capacidade mental de quem a consome. Depois de ser obrigada a colaborar com um poderoso e misterioso gang asiático, fica, tal como um animal numa armadilha ou como uma presa, à espera do seu predador. É-lhe colocado no interior da barriga um saco com esse narcótico - o mesmo que um feto recebe da mãe em doses mínimas durante a gestação e que aumentam exponencialmente o seu desenvolvimento, sobretudo mental. Quando é espancada por um dos membros desse gang, o saco rebenta e a substância espalha-se pelo seu corpo, criando uma alucinante viagem interna pelas suas capacidades, que obrigam a ver o mundo de outra forma, diferente do formato com que habitualmente vemos o mundo.

Se os Humanos com dez porcento já causam tantos danos, imagine-se se conseguissem utilizar um pouco mais da sua capacidade mental! Mas ainda bem. Dez porcento é perfeitamente suficiente para sermos os seres (in)inteligíveis que nos tornámos e muitas dores de cabeça já nos provocam. O problema são mesmo as pessoas que nem sequer se esforçam para utilizar metade que seja dessa capacidade e tornam o mundo um sítio menos bom para se estar e viver. Claro que haverá sempre aquelas 'inteligências' raras que a utilizam para o mal. Mas prefiro pensar que ela - a inteligência - tem o propósito de nos tornar pessoas melhores.

Ainda assim estou cada vez mais convencido da máxima que reza que 
"A ignorância é uma benção."
(Do poema de Thomas Gray, Ode on a Distant Prospect of Eton College (1742): "Where ignorance is bliss, 'tis folly to be wise.")


(Caso não consigas visualizar o trailer, clica aqui)


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A margem do erro


Sabia que no mundo há mais de seis biliões ( seis mil milhões ) de pessoas que NÃO passam fome? Ou seja, a maior parte da população mundial. Espero que o leitor faça parte deste grande grupo, mas este texto é sobre a outra parte.

Os inquéritos ou sondagens que se levam com muita frequência a cabo pecam sempre por não conseguirem resultados cem porcento corretos. Para já porque se tratam frequentemente de amostras de uma determinada população. À exceção de um census, que se destina a toda a população que se quer analisar. No entanto, mesmo neste caso existe o erro que é o da subjetividade, no que às opiniões diz respeito, já que os dados sociográficos (como a idade, género, altura, largura e outras gorduras sociológicas) são mais absolutos. E até estes costumam mudar: cada vez estamos mais velhos ou queremos parecer ( e até ser ) mais novos, estamos mais magros ou gordos, vivemos aqui ou ali, e mesmo quando não vivemos aqui podemos estar a passar uns tempos acolá. Acontece o mesmo no género de uma pessoa, que já foi bem mais fixo do que é atualmente.

Embora seja uma ciência social, a análise dos resultados deste tipo de método quantitativo de estudo não deixa de dar uma ideia sobre determinado assunto. Os estatísticos - os senhores ou as senhoras  que analisam as estatísticas - tendem a acertar ao meio, nas médias, nas medianas, lembrando-me aquele texto, que quase em jeito de anedota conta:

"Um biólogo, um antropólogo e um estatístico foram à caça. O biólogo apontou para o alce e acertou meio metro à esquerda. O antropólogo fez pontaria e acertou meio metro à direita. Vem o estatístico que diz que o resultado da caça permitiu acertar em cheio."

É caricata, esta média, mas a alegoria não deixa de estar correta e aplica-se neste tipo de análises baseadas na quantidade de dados. É caso para dizer que se eu comer um frango e o leitor não comer nenhum, pode dizer-se que ambos comemos metade. É a média da gula e da fome.
Na época natalícia que se aproxima e onde já mergulham a maior parte das cidades, incluindo as cidades comerciais, aproxima-se a generosidade globalizada das pessoas e a sua atenção volta-se para o ato de dar a quem mais precisa. Um ato que não se condena nem nesta, nem nas restantes épocas do ano. Uma dessas campanhas de solidariedade é no combate à fome, precisamente.

Mas vamos a números. Sabe-se que no mundo há mais de seis biliões ( seis mil milhões ) de pessoas que NÃO passam fome. Ou seja, a maior parte da população mundial. É na margem deste erro que se  encontra o 'erro' que vai para além da estatística e se entra na humanização da questão. Ou desumanização, pois o outro lado dos números esconde, deixando bem à vista, 805 milhões de pessoas que não têm comida suficiente para levar uma vida ativa saudável. Isto corresponde a uma em cada nove pessoas no planeta Terra. Quem o diz é a World Food Programme (WFP), "a maior agência humanitária do mundo no combate à fome mundial", que informa:

Dois terços do total da população com fome mora na Ásia, enquanto em África uma em cada quatro pessoas está mal nutrida. Aliás, a má nutrição ainda é a causa de morte em quase metade ( 45% ) das crianças com menos de cinco anos. São mais de três milhões de crianças por ano! E são cerca de cem milhões aquelas abaixo do peso ideal, uma em cada seis. E se as mulheres das zonas rurais tivessem o mesmo acesso aos recursos quanto os homens, o número de pessoas com fome no mundo podia reduzir até 150 milhões. A WFP calcula que por ano são precisos 3,2 biliões de dólares ( americanos ) para chegar a todos os 66 milhões de crianças com fome, em idade escolar. 

Estes são, grosso modo, os números das estatísticas. O problema é que cada número é uma pessoa e uma vida. E para essas não pode haver margem para erro, já que significa ter ou não ter o que comer. Tudo o resto fica em perspetiva: as luzes, a abundância, o consumir desenfreadamente. Não me interpretem mal: nada tenho contra o espírito natalício, que chama a atenção para o calor, o humano, a luz, a alegria, a cor. Espero é que seja extensível a todo o ano, em todos os gestos que nos obriguem, sem obrigação - senão a moral -, de sermos mais generosos e, consequentemente, melhores seres humanos. E que não nos queixemos quando tivermos a barriguinha cheia.

Já agora, porque não ajudar com um gesto tão simples como jogar um pequeno quiz da WFP, para testar o seu QI da fome? Para cada pessoa que o fizer, será dada uma refeição a uma criança. Faça-o e partilhe:

http://quiz.wfp.org/

Resposta para o mail:
"You took the quiz - and fed a child!"
Ou então, para quem quiser ajudar e ao mesmo tempo assistir a um espetáculo de fado, pode aparecer no próximo domingo, dia 7, às 18h30, no Palácio Foz, no Cantar o Fado Contra a Fome. Vários fadistas e dois guitarristas participam solidariamente, juntamente com outras empresas, associações e instituições, para que este problema ( que ainda é um flagelo ) seja erradicado da face da terra.  O preço do bilhete é acessível ( de 5 a 25€ ) e aproveita para ouvir boa música, conhecer um espaço secular de requinte e brilho, enquanto contribui para um mundo melhor. É melhor assim.

( mais informações )

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sábado, 8 de novembro de 2014

As vidas que cabem num dia


A rotina é uma coisa tramada. Ela transforma os hábitos em clausura e ao mesmo tempo separa a nossa vida das vidas que estão 'lá fora', no 'outro' mundo.
Basta sair um pouco da rotina, quebrá-la ou rachá-la, apenas, para se ter uma maior noção que a vida é maior do que aquela em que cabe a nossa própria vida. 
Não é preciso muito. Ás vezes ir pelas escadas, atravessar a rua, mudar de passeio, mudar de estrada, de banco (ou de cadeira), de linha de metro, de jardim, de café ou de esplanada, de uma divisão da casa para outra. Ou sair porta fora, atravessar um continente, um país, um mar ou apenas um rio. Diminuir os passos que damos ou até mesmo parar. Ou correr, saltar, brincar a um jogo que nunca brincámos. Meter conversa com alguém com quem nos cruzamos todos os dias mas com quem nunca falamos. 

Hoje a reunião de trabalho é num sítio diferente. Não vou para um escritório. Estarei em vários sitos, logo, em vários 'escritórios'. Saio numa estação de metro que costuma ser apenas de passagem.  Naquela saída, enquanto aguardo pelo colega e amigo de trabalho, em menos de dez minutos passam por mim varias vidas: a da mulher que trouxe de carro o marido até ali (despediram-se com um beijo e uma troca de olhares cúmplices, que diziam qualquer coisa que não consegui traduzir para a minha linguagem - é só deles e não tem de ser de mais ninguém), do rapaz nitidamente nervoso a tirar a carta de condução, na mulher jovem, bem vestida, que vai para o trabalho (imagino eu) na sua bicicleta (muda descontraidamente de faixa para se desviar de um carro estacionado, metendo-se à frente de outros carros, que lhe buzinam, mas ela despreocupadamente segue o seu caminho como se nada fosse), as crianças que àquela hora da manhã já brincam no parque do meio da grande alameda verdejante da cidade. 

O parque infantil recebe as crianças com os mesmos raios de sol que, ali bem perto, eu também recebo. O parque infantil tem o chão de areia. Reparo num sinal à entrada que indica que a areia é higienizada regularmente. A cidade pensa em tudo. Outro sinal ao lado tem uma série de números de telefone para alguma urgência, de qualquer tipo: médica (112), municipal (divisão da Câmara responsável por aquele equipamento) e até da ASAE. Estará a areia tão limpa que se pode cozinhar nela? 

A primeira paragem para uma inicial parte da reunião é numa mesa de café no Parque das Nações, onde um de nós toma um pequeno almoço já tardio (o segundo, talvez). Dali seguimos para Marvila, onde vou encontrar uma igreja do século XVII. Está fechada. O segurança diz que a chave está com uma senhora, dona de uma mercearia ali em frente. Fomos ter com ela e lá a conseguimos convencer que somos pessoas sérias e que não vamos demorar muito. Descobrimos que a senhora é de Viseu e ainda acabamos por lhe comprar umas ameixas, depois de eu conhecer o rico interior barroco do edifício religioso, uma relíquia da cidade de Lisboa. Talha dourada, azulejos, quadros, mármore a formar intrincados padrões quer no chão quer nas paredes, tudo a condizer com o estilo artístico.  Algumas coisas a precisar de urgente restauro (um dos altares está mesmo retirado para esse efeito).

A reunião continua para o local onde era suposto haver outra pequena reunião. Como não se agendou e é tudo muito (demasiado) informal, batemos com o nariz na porta e a manhã de trabalho dá-se por concluída. Devia seguir para o ginásio, mas pego antes qualquer coisa para comer e vou para o anfiteatro da Gulbenkian saborear o meu manjar, enquanto me inspiro para escrever e enquanto inspiro o ar daquele pequeno paraíso verdejante também no centro da cidade. O mundo tão perto mas tão longe dali. Vou ao CAM, decido. O Centro de Arte Moderna é a próxima paragem e faço uma pausa na escrita.
Ponho na porta deste post um
VOLTO JÁ

***

Mente exercitada. Falta o corpo. Vou e fui.
A tarde está passada, mas não o dia, que ainda tem trabalho pela frente. 
Muito trabalho, mas muito inspirado.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A língua portugueira é muito traiçoesa : nem todos os A's são verdes



Começou a ideia deste post com uma dúvida colocada por um amigo, por sua vez provocada por uns colegas deste, sobre em que circunstâncias se devem utilizar as palavras 'obrigado' e 'obrigada', não como verbos mas como agradecimento. Para mim (e para esse amigo) a dúvida não se colocava, pois sabíamos que dependem do género da pessoa que as utiliza, e não da circunstância ou do contexto. Ou seja, os meninos dizem 'obrigado' e as meninas 'obrigada'. Tal e qual como na apropriada conjugação verbal.

Eu sabia porque esta dúvida já a tinha tido há uns tempos e na altura fiz a pesquisa necessária para a esclarecer. Mas a insistência dos colegas desse meu amigo, que teimavam não ser assim, levou-nos a procurar nos entendidos manuais o esclarecimento que, não só os calasse, mas os ensinasse qualquer coisa. É assim que devemos fazer, em vez de nos armarmos a entendidos convictos cuja convicção é deitada por terra com uma simples busca pela informação correta.

Esta pequena mas curiosa pesquisa fez-me, por um lado, pensar nas barbaridades que se vão dizendo e escrevendo no dia a dia, calinadas que fácil e gratuitamente empobrecem a língua portuguesa com a pobreza de vocabulário e de conhecimento das regras gramaticais. Já nem falo do polémico novo (já não tão novo assim) acordo ortográfico. Isto num país em que a taxa de analfabetismo, segundo dados do último censos (2011) aponta para níveis cada vez mais reduzidos (%?) enquanto, por outro lado, nunca tivemos tantos licenciados no país.

O paradoxo disto, destes dados, é que a expressão escrita (e até a oral) não espelha esse conhecimento maior de seja qual for a matéria estudada. A comunicação continua, ainda, a ser uma 'coisa' que não interessa muito, quando, afinal, dela dependemos para nos expressarmos. Dela depende o início ou fim de uma guerra, de um romance, de mal ou bem entendidos, de conhecimento adquirido, etecetera, etecetera (assim mesmo, por extenso, para aumentar a importância do etecetera). É que ainda há muita gente (também se pode dizer 'pessoas') que não sabe, por exemplo, distinguir a utilização da forma correta do verbo haver com o outro 'à'. Mas (não) são verdes.
Eu vou há praia mas à muito tempo que lá não ponho os pés. NÃO
Há, isso sim, alguma coisa em mim que me faz trazer este assunto à baila. SIM
Pode pensar-se que não, mas a dúvida parece uma daquelas tradições que não deixam de existir, mesmo quando já não fazem qualquer sentido que as haja. Ainda há bem pouco tempo um conhecido meu teve de apresentar uma proposta de prestação de serviços (em comunicação, veja-se a triste ou apenas patética ironia) e nela era taxativa, quase vergonhosa (envergonhei-me por ele), a utilização do verbo haver (há) quando queria colocar um qualquer assunto à consideração de Vossas (dele) Ex.as. 

A informal pesquisa fez com que, por outro lado, eu encontrasse outras expressões que podem suscitar algumas dúvidas (incluindo em mim mesmo). A elas voltarei oportunamente, para não maçar muito a vossa leitura. À cautela. Há muito tempo para isso.

Obrigado pela vossa atenção.


Créditos da imagem:
Garden, por Reem Yassouf

***
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sábado, 4 de outubro de 2014

Sorria, não está a ser filmado



Não será o mundo muito melhor se sorrirmos mais?
O que é que ganhamos ao espalharmos sisudismo* pela terra e à nossa volta?
Eu não sou propriamente uma pessoa que ande sempre com um sorriso nos lábios, mas tenho inveja (da boa) daquelas pessoas que conseguem ter essa expressão na cara 24 horas por dia. Penso que  é genético e é uma raridade. A maior parte de nós não é assim. 
A nossa expressão facial normal é asséptica: não tem expressão. O que não quer dizer que não tenha emoção. O que os olhos não vêem a maior parte das vezes o coração sente. Por muito que se treinem os inúmeros músculos, eles não conseguem estar sempre, a toda a hora, em qualquer momento, faça chuva ou faça sol, em tensão de sorriso. O que me deixa tenso, por vezes. Eu bem tento, mas não consigo. Eu bem treino, mas é difícil ter isso sempre em consciência. 

Tomar consciência de que é necessário sorrir e rir, de vez em quando, com regularidade, é imperativo para sermos felizes. A felicidade não é uma constante. Ela faz-se de intermitências e encontra-se quando encontramos um motivo para sorrir. Qualquer que seja o motivo, de qualquer tamanho ou importância. Poucas vezes é por termos muito dinheiro, muitas vezes é por termos algum dinheiro, mas mesmo quando se tem pouco ou nenhum dinheiro, isso não é fator crucial para ser feliz.

Ser feliz é sorrir com as coisinhas mais sem importância que existem na vida. O que não tem importância para os outros pode ter para nós. Olhar para o céu e ver um azul, um cinza ou um sol, uma ou muitas estrelas, qualquer lua, minguando, crescendo ou cheia, qualquer mar, praia, rio, uma lareira, uma árvore de Natal, uma pinha, uma abóbora, luzes, barulho de uma multidão ou silêncio de uma escuridão, a quantidade de novas mensagens no canto de um ecrã, uma chamada perdida que logo se acha, um aperto de mão, um cumprimento sincero, um abraço com ou sem beijo, um beijo com ou sem saliva, vestir aquela roupa, cheirar aquela flor, aquela terra molhada, ficar molhado pela chuva ou por um mergulho, mudar aquela planta de vaso, arrancar aquela erva daninha... Assim se semeiam sorrisos na nossa vida. Isso, asseguro-vos, contagia tudo e todos à nossa volta. Mesmo que semeie a inveja por esse sorriso que o outro tem e que eu quero ter, porque fará com que se queira tê-lo e com que se procure encontrá-lo também.

É por isso que gosto de aparelhos que tiram fotografias. Assim que se apontam a alguém tem o condão de transformar em sorriso os lábios de uma pessoa. Quase todas as pessoas. Mesmo que o sorriso seja só para a camera, não creio que tenha de ser falso. Ele tem qualquer coisa de real na imagem que fica em digital ou em papel. Tem o poder de relembrar que naquele momento, daquele instante captado, fomos mais felizes. 


Prova do que digo?
Lembram-se do Candid Camera? O programa de televisão teve a primeira edição em 1948, na altura apresentado pelo seu criador Allen Funt (que apresentou ou co-apresentou a maior parte das séries até a doença o impedir) no canal americano ABC (embora tenha passado por outros, como as cadeias NBC ou NBS). Mas a série apresentada pelo Dom DeLuise, entre 1991 e 1992, é a que lembro melhor por ter acompanhado a minha plena adolescência. Ainda hoje recordo o famoso slogan jinglado:
Smile! You're on Candid Camera!
Foi percursor de todos os apanhados que o sucederam. No final das situações os apanhados riam-se sempre quando descobriam que tinham estado a ser filmados. A camera já la estava, eles é que não sabiam. Bastava a consciência de que afinal ela lá estava (e tinha estado) para sorrirem. É claro que a situação é que gerava o ridículo e a inevitável graça. Daí o apanhado. Mas a pessoa sorria e os espectadores também. Daí o sucesso do programa, também em Portugal.

É claro que sempre haverá pessoas que não gostam de ser capturadas dessa ou de qualquer outra forma por uma fotografia ou filme. Mas são cada vez menos essas pessoas. Há muito da alma de cada um que ali fica, seja mais tímida ou desinibida a pose. Embora as poses sejam cada vez mais desinibidas - incluindo de crianças que ainda nem sequer sabem o que é que quer dizer inibição ou exposição, cuidados extras que cabe aos pais controlar, mesmo que sejam eles próprios os responsáveis por essa exibição orgulhosa -, prefiro pensar que elas espalham sorrisos pelo mundo. Logo, mais felicidade, logo, menos sisudismidade.

Não esperemos, contudo, por uma camera ou de um artifício qualquer, ou mesmo por outra pessoa, para o fazer: sorria ao desbarato, mesmo que ao resto do mundo pareça um bocadinho parvo. Antes parvo feliz do que um rico sisudo e triste.

(É claro que se for rico, parvo e feliz é muito melhor.)

Há quase trinta anos Miguel Esteves Cardoso, numa das suas crónicas (Neura) para o jornal Expresso, explicava muito witty-witmente** porque é que os portugueses se vangloriam e orgulham da sua tristeza fadista (e não fatalista). Eu sei que recorro muitas vezes a este escritor-criador e criativo (um destes dias explico o porquê, dedicando-lhe um post), mas ele acerta na mouche. Não transcrevo todo o texto mas apenas um parágrafo que espero suscite curiosidade para ler o original***:

"A Neura não tem cura porque os Portugueses, quando a têm, não a querem curar. Querem é alimentá-la. Quando estamos com a Neura é como se estivéssemos com uma grande amiga nossa. - "O quê? Não me digas que não conheces a Neura?" Caso a Felicidade bata à porta, não a deixamos entrar e, com a porta semicerrada, sussurramos-lhe "Desculpa lá, ó Felicidade, mas agora não dá. - é que estou com a Neura..." E a Felicidade fica na escada." (sic)

Para terminar, coloquemos os olhos no video de apanhados da Rituals, que a marca criou para uma campanha que tem o slogan apropriado a este post:
When you smile to the world, the world smiles back.
(Quando sorris para o mundo, o mundo sorri para ti. - minha tradução) 

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* sisudismo  - substantivo, palavra que deriva de sisudo (adj.), aquele que está sempre de trombas. Não confundir com elefante - esse não consegue tirar a tromba, por muito que se ria.
** witty-witmente - advérbio de modo de estar, derivante de witty wit (subst.); carateriza alguém que tem um sentido de humor espirituoso.
*** Neura faz parte de uma coletânea de crónicas em A Causa das Coisas.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Da al-qatifâ ao soalho flutuante, passando pela idade dos parquets


Em 1986 (tinha eu 10 anos) o Miguel Esteves Cardoso escrevia semanalmente crónicas para o jornal Expresso. Uma delas dedicou-a à alcatifa* (nome de origem árabe, al-qatifâ**), que então considerava "um dos grandes equívocos do século XX, expansões lanudas de grande monotonia e vulgaridade, (que) privam os pés de contactar directamente com a dura realidade do soalho, habituando o Homem a uma falsa impressão de onde pisa, criando nele o culto fútil e amaricado do 'fofinho'". Estes eram os anos em que os chãos que se pisavam necessitavam, de quando em vez, do seu "champooing" e outras manutenções de que as pessoas se haviam de arrepender, mais tarde ou mais cedo.

Eu lembro-me muito bem desses tempos e confirmo a moda. Quase toda a casa dos meus pais em Lisboa, para onde viemos morar mais ou menos nesse meado de década, era coberta nesse material, que amortecia muito os passos que dávamos, diminuindo o volume aos ouvidos das senhoras de idade que moravam no andar de baixo, de um prédio antigo com chão em madeira. Também o novo apartamento (a estrear) para onde nos mudámos nos finais dos anos 80, tinha o chão forrado a fofinha alcatifa, mundo apetecível e ideal para milhares de hediondas criaturas minúsculas, responsáveis pela maior parte das alergias de então (facto acrescentado por mim a esta narrativa mas não comprovado cientificamente).

O Miguel foi um visionário e anunciava, no final dessa crónica, o fim das alcatifas nos lares portugueses, imaginando que um dia mais tarde as pessoas se ririam com a simples menção à palavra 'alcatifa', que daria lugar a um mundo mais brilhante, de soalhos cintilantes e envernizados, livres da mordaça que durante anos os aprisionara. Tinha muita razão. Assim foi.
A época da alcatifa foi substituída pelos áureos tempos dos soalhos em parquet, madeira natural, que envernizada dava outra luminosidade a qualquer divisão. 
Mas este tipo de pavimento também exigia muitos cuidados. Encerar e afagar um chão coberto nesse material era muito trabalhoso. O meu pai (outro visionário mestre da bricolage) quando decidiu retirar a alcatifa, optou por cobrir o chão com tijoleira/ azulejada, outro material, já na altura em voga. Estávamos nos primórdios da década de 90. Ainda hoje é uma opção no revestimento imobiliário. Eu próprio, na minha casa atual, tenho este tipo pavimento em quase todo o chão da sala, menos no quarto.


Este material tem a desvantagem de ser frio. Por isso se tem optado por colocar o soalho flutuante, um material duradouro, relativamente barato, fácil de colocar, imita as propriedades da madeira, dá luz a uma divisão, é confortável e acolhedor. Mas o mercado está cheio das mais variadas soluções, das cerâmicas às madeiras flutuantes, dos mais naturais aos mais sintéticos. Os vinílicos, por exemplo, segundo a descrição de uma empresa especializada***, são "Pavimentos lisos, pigmentados ou estampados, de elevada resistência e fácil limpeza onde o Poliuretano retira a necessidade de manutenção." As opções abundam, para cada local específico que se deseja cobrir neste material: há os acústicos (com base em espuma e grande poder de absorção acústica e ao choque, "com propriedades bacterianas"), há os autoportantes (mosaicos com colagem adesiva), condutivos (ou anti estáticos, mais apropriados para zonas técnicas como salas de informática ou de cirurgia), há os 'paredes', "Impermeáveis, com tratamento fungistático e bacteriostático". Já o linóleo é fabricado a partir de óleo de linhaça, flor da madeira, pedra de cal, pigmentos e juta. É amigo do ambiente já que é biodegradável.

Falta aqui falar, por exemplo, da corticite, outro derivante da madeira que durante anos foi moda nos pavimentos mas que agora é moda noutras aplicações bricolágicas, da arquitetura ou do design ao mundo da moda e acessórios. Apesar da madeira ser um clássico material, recorrentemente usado, reutilizado e reinventado, a alcatifa vem de vez em quando pontuar um ou outro projeto de decoração de interiores. O que vem provar que não morreu, definitivamente. Ela adormeceu para se erguer sem as desvantagens que tinha nos anos oitenta. 

Espero que por esta altura o meu leitor não tenha desistido já de ler este post, aborrecido ou adormecido pelos termos técnicos sem interesse que discorri acima. Se ainda aqui está, gabo-lhe a paciência e agradeço a simpatia por continuar a ler. Apesar da descrição quase gráfica dos tipos de materiais, e além de alguma cultura adicional sobre pavimentação, que com certeza irá recordar da próxima vez que precisar de mudar aquele soalho lá em casa, fiz uma viagem à história mais recente dos pavimentos portugueses, cujas opções disponíveis dizem sempre muito sobre as próprias pessoas que os pisam. Sobre o seu estilo de vida, por exemplo. 

Agradeço ao Miguel, por esta reflexão, provavelmente na lista das mais inúteis que já fiz, mas que ainda assim não impediu que me inspirasse os pensamentos e a escrita. Como sempre faz a maior parte dos seus textos. Os meus - como este - nem de longe se aproximam dos dele, mas pelo menos a isso posso aspirar. Aspirar bem, para que não restem ácaros de dúvidas literárias.

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* O texto em referência tem como título Alcatifa e faz parte de uma coletânea de crónicas reunidas e editadas no livro A Causa das Coisas (1987)
** Para quem já não se recorde, alcatifa é "o nome que se dá a um tapete de fibra, de lã, ou outro material, com que se reveste totalmente o soalho de uma divisão" (In O Português sem Erros, 2009, Selecções Reader's Digest/ Texto Editores)
*** Não interessa a referência. Quem quiser saber o nome pode sempre googlar.

* * *
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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ena pá, 2014! 30 a nus de carreira


No ano em que a banda de rock portuguesa (claro) Ena Pá 2000 comemora 30 anos de carreira, eu quero comemorar um álbum És muita linda que faz 20. Em 1994 o cd marcaria um período inesquecível da minha vida e, presumo, o de muitos dos atuais trintões e quarentões portugueses. É por muitos considerado o mais popular da banda, conhecida pelas letras carregadas de humor brejeiro e pornográfico. Logo, polémico, como a banda gosta de ser. É o que se podia esperar de um grupo cujos elementos têm alcunhas como Francis Ferrugem/ Rei ou Ray Bonga (o percurssionista Francisco Ferro, rei das Congas), Zé Líquido Rato (o baterista Luís Desirat), Pepe Mijo/ Pepito Furex (Pedro Rijo, nome verdadeiro), Manuel Anão/ Escaravelho da Foz do Arelho (o Baixo Manuel Duarte), Juanito Porkys Del Mar/ Joni Pórkinho/ Pão Diospiro (o guitarra João Santos) ou Lello Marmelo/ Orgasmo Carlos, líder e vocalista-artista-ativista-político Manuel João Vieira, que mantém a irreverência e polémica, mesmo a solo, na vida (ir)real.

O cd foi-me oferecido pela minha namorada da altura. Nunca os esqueci: nem a ela nem ao cd, que de quando em vez insiro na grafonola digital para recordar as músicas. 

- Isso é lá coisa que uma miúda compre e ofereça ao namorado?  - podem alguns pensar, admirados.

A admiração, contudo, não deve ser essa (nem outra que o meu estimado leitor possa vir a ter). Depois de ultrapassado o choque da também polémica capa do cd (que reproduzo abaixo, para quem não conhece, e acima, a ilustrar este post, mas com muito mais censura), começa o encanto do seu interior musical, que teve participações dos alentejaníssimos Vitorino e Janita Salomé, do Gimba, do João Paulo Feliciano e do Bernardo Sassetti. Ao longo das 20 faixas sucedem-se cacofonias de fazer corar um Quim Barreiros, ou qualquer outro cantor pimba que nem no século XXI se atreveria a reproduzir num dos seus espetáculos, muito menos numa daquelas exaustivas mas muito populares maratonas de programas de televisão de fim de semana. 

Os títulos dos temas vão dos mais simples e cândidos (só nos títulos) aos mais hard. Rock com uma pitada - ou muita pitada, pronto, admito - de XXX. Quanto baste para apimentar a coisa e sem outros pis castradores: aqui os coitus musicais só são interrompidos com as gargalhadas que inevitavelmente provocam aos que o ouvem com atenção. Segue a minha proposta/ guia para a audição de cada uma das faixas, uma tentativa para atenuar - castrar - as palavras e o sentido que no original poderão encontrar (qualquer pesquisa na net os encontram).  Aviso que os títulos não são de minha autoria e podem ferir os ouvidos menos liberais ou insensíveis.

1. Alice - O vocalista pede ao longo da música a uma senhora ou menina, que se chama Alice, que lhe lamba uma certa coisa, que nunca percebi exatamente o que é mas que rima com o seu nome. E recomenda-nos, a nós e a todos os que pensam acabar com a própria vida, a experimentar essa magia de amar que a Alice tem. Só sei que desde que ouvi este tema, nunca mais consegui encarar da mesma maneira alguém que se chamasse Alice. Fica no ouvido. Provavelmente há muito bom homem que ainda hoje procura por ela. 

2. Dona - Não sei se se refere à Dona Alice, da música anterior. Um arroto discreto abre o tema da senhora que ama quer analfabetos quer doutores. Um amor democrático, portanto, com um quintalinho acolhedor cor-de-rosa em botão, a mais linda flor de uma música em que não falta uma breve passagem pelas notas musicais que fazem lembrar um circo.

3. Vida de Cão - É uma espécie de diário de um homem a quem comparam com um canito, com direito a pulgas e tudo. Uma vida difícil que só os prazeres de uma meretriz, visitada religiosamente ao domingo, numa qualquer pensão, pode apaziguar. Tudo regado com um som rockalhado que acaba com os acordes da música "Quando o coração chora de amor" no momento em que o desafortunado homem protagonista é esmagado por um camião.

4. Nunca 1 - A balada do álbum que é uma declaração de amor carregada bolas de sabão e de sátira. O autor enamorado afirma que nunca deixará de sentir ponta por ela, de ter o seu zé levantado por ela, terminando o tema com um suspiro chorado. Provavelmente a história não fica por aqui.

5. LSD 25 - Não gosto particularmente deste tema. É sobre o que se vê ou sente quando se consome uma qualquer inebriante substância (tipo crocodilos de cristal, lulas verdes extravagantes, ovos de Aveiro, serpentinas ondulantes e outras cenas do género).

6. Nunca 2 - E a história não se ficou por ali. Repete-se neste tema, sobretudo o refrão. Distingue-o apenas as rotações ora lentas ou rápidas e um final riscado. Dos meus preferidos!

7. Semi-Tango - Neste tango entram a dançar várias personagens. Há um homem que tenta cortar uma vaca com uma faca torta. Há uma costureira e uma velhota que gostam de apanhar bebedeiras à meia noite numa... banheira (uma vez mais aqui o nonsense, apenas para rimar a palavra  com aquela profissão). Parece-me que são vizinhas do tal homem, a quem às tantas numa noite de chuva lhe apetece comer frango assado e a quem um coração cantante lhe faz ter instintos de estripador. Mas aquela vaca já estava morta. É nós dançamos, divertidos, este tango que é tão semi como senil.

8. Masturbação - Este canto é gregoriano e apresentado, com orgulho, por uma voz que bale. A letra é muito complicada: resume-se a um conselho para que se pratique este ato de auto-prazer para bem da nação. 

9. Bacamarte - Este é o tema mais vaidoso do álbum. O seu personagem gaba-se o tempo todo do tamanho do seu grande órgão genital, dedicando-lhe o título da música: bacamarte. Mas também lhe chama linguiça, pilinha (só para dizer que é tão grande que vai da costa à linha) e linguiça. Até onde vai a imaginação hard-core

10. Rap Alentejano - É nesta música que o Vitorino e o Janita cantam e fazem coro. O protagonista é o General Zé que se vem manifestar em rap por uma grandessíssima atitudi. Muuuuuita a-a-a-a-titudi.



11. Paneleiro - O início deste tema lembra-me um filme do Tarantino. Como noutros tema, o nonsense reina, com palavras colocadas apenas para rimar com o título e outros estereótipos associados aos homens que têm essa preferência sexual: gostam de chupar no gelado, têm um corpo musculado, assopram nas camisas (?), puxam o lustro aos para-brisas (??). Mas, sobretudo, são uma espécie muito limpa: tomam muitos duches no chuveiro (rima) e lavam muito bem a região pudibunda com... OMO. Por isso são Omossexuais! O filme está feito. Genial.


12. Marisco - O mais tropical e delicioso tema. Afinal, há muito pouca gente que não gosta de marisco, não é? Afirma o cantor que "Agorra nos práia di Porrtugal já não há marrisco igual àqueli di antigamenti". É preciso ter atenção porque a iguaria é boa mas pode causar intoxicação. A música também causa um bocadinho

13. Fim-De-Semana Em Vizela - Deve ter sido um fim de semana prolongado, com feriado pelo meio. É que não só foi passado em Vizela, como 'entram' o Fernando Mamede, a mulher do Vitor Espadinha, a filha da Teresa Braganza, a neta do Bispo de Beja, a secretária do Taveira, a tia-avó do Júlio Isidro, a criada do Salazar, o Macário Correia, a amiga do Santana Lopes, o major Valentim Loureiro e a sogra do Mário Soares. Isto é que foi um forrobodó, heim! Com muita rima à mistura.

14. Puta - Ela tem a profissão mais velha do planuta, o seu coração palputa pelas pedras da calçuta, faz com que o suor dele caia em cascuta e dá-lhe um nó na pixuta, pra ver se ele aprende. Lindo!

15. Fucking Time - Não gosto desta, por isso não a comento.

16. Carla Andreia - Outra música dedicada a outra moçoila. Aliás, quase todas andam à volta das fêmeas que inspiram a banda. A Carla Andreia, de olhos azuis, não é exceção. 

17. ABC Do Amor - Outra balada, outra volta no carrocel do amor e da beleza feminina que, uma vez mais, celebram a cantar. Tanto, que acabou por inspirar o nome do álbum. É que a chavala é mesmo buéda, buéda linda, fixe e maravilhosamente porreira, pá! O tema tem duas partes. A segunda tem mais batida.

18. Alcina - É claro que é assassina e senhora da sua vagina. Que outras palavras se conseguiam encontrar para rimar com o seu nome?

19. Perversa Adolescente - Embora pequena em estatura (anã de não mais de metro e meio) dá tanta pica que faz levantar a... pedra da calçada. Seus malandrecos! A segunda parte da música é mais infantil no tom: tem um ursinho que gostava de comer mel, até o ter enjoado, procurando, então, ajuda divina. Mudou os hábitos alimentares para o seu manjar. Oh, tãooooo querido!

20. A Titi Fez Um Tété - O popó que o papá deu, o teté que a titi fez com óleo Fula, o xixi que o bebé fez e o cocó que fez o avô. Não é bom brincar com as palavras? São uns brincalhões, estes gajos! 

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Quanto a ser o mais popular álbum da banda, a Wikipédia nota que a afirmação carece de fontes. No entanto esta fonte (eu) confirma-o. De que mais fontes precisaria eu?


Crédito de imagens: capa do cd És Muita Linda, Ena Pá 2000 (1994); 
Les Bas Blancs (Mulher Com Meias Brancas), Gustave Courbet (c. 1861)


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domingo, 28 de setembro de 2014

Movifostes ou Movi-à-flor-da-pele


Mostrem-me um português da classe média ou baixa que nunca tenha feito uma compra na Moviflor, e eu mostrarei o meu espanto e a minha incredibilidade. Durante anos foi a Meca de quem procurava aquela estante, aquele móvel, aquele sofá, aquela cama com mesinhas, guarda roupa e cómoda a condizer, aquela mesa de escritório com a respetiva cadeira, aquele abajur, candeeiro, cortina, tapete ou qualquer acessório para a casa. Ainda me lembro dos tempos em que a única loja (se não a única, uma das poucas) era a concorrida e publicitada do Largo da Graça, em Lisboa. Há uns tempos que lá não vou, mas lembro-me que uma das últimas vezes não só não encontrei o que procurava (que não lembro o que era), mas fiquei deprimido por já não ser o que outrora fora. Além de me parecer, esta loja em particular, muito pequena. Mas isso foi porque inevitavelmente a comparei com outra da cadeia, gigantesco centro comercial do móvel na Margem Sul (em Corroios), com três enormes pisos. 

Foi lá que comprei o sofá e o tapete da sala para a minha primeira casa, em Lisboa. Antes disso, claro que em casa dos meus pais qualquer nova necessidade deste tipo de mobiliário era a ela que recorria. Também para a primeira casa que comprei foi lá que encontrei algumas peças. 
Entretanto chegou a Portugal um novo conceito (estrangeiro) de mobiliário (design sueco, dizem) a preços acessíveis à maioria dos portugueses, num enorme espaço comercial onde eles passaram a fazer as suas compras, maravilhados com as novas possibilidades de arrumação, organização e decoração para a casa, com muitas soluções para casas com divisões de tamanhos modestos. Claro que o grosso catálogo desta marca, que todos os anos aparece na caixa de correio de quase todos os portugueses, passou a ser a bíblia de mobiliário de muitos. 
Os móveis da Moviflor passaram a estar muito datados e fora de moda, apesar dos esforços. Não valia a pena concorrer: os portugueses estavam determinados a passar dias inteiros a percorrer os imensos metros - dizer quilómetros não seria exagerar - dos labirínticos corredores da outra loja, que oferece menus de pequeno almoço e de almoço a preços também acessíveis, que convidam a ficar ainda mais tempo. A estratégia parece funcionar. O restaurante e a loja está sempre cheio ao fim de semana. Sei porque também me rendi, durante uns tempos, ao design e conceito simples, embora as almôndegas de carne não me atraiam particularmente.


Não admira, por isso, que a Moviflor tenha vindo, nos últimos anos, a sentir o abalo na faturação. Apesar das tentativas de recuperação, com novos investimentos para a tentar salvar, a cadeia não está a sobreviver saudavelmente. Já não consegue pagar a tempo e devidamente aos empregados e as últimas notícias dão conta que irão fechar as lojas já a partir do dia 1 de outubro. 
Nas reportagens dos vários canais de televisão, à hora de almoço ou de jantar, os empregados queixam-se dos atrasos nos vencimentos. Os portugueses, como eu, têm pena da situação e comentam a tristeza que é, ao que o país chegou, e vai lembrar-se disso sempre que olhar para aquele móvel comprado lá a prestações, aqui há tempos.

Mas para afogar as mágoas, e já que é domingo e está a chover e tudo, que tal irmos à tal loja que até vende umas bolachas suecas de gengibre e pimenta, muito boas e estaladiças, e se aproveita para comprar aquele móvel, jeitoso pró quarto dos miúdos, com arrumação engenhosa e que vem numa embalagem plana que até cabe na bagageira?

A economia, em Portugal, agradece. Afinal, sempre se está a dar emprego a (outros) portugueses (e parece que as peças, apesar de design sueco, são construídas em Portugal). Pelo menos até ver...

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Duas moedas, duas faces



Já tenho alguma experiência laboral para conhecer algumas das faces das várias moedas que uma instituição, pública ou privada, podem ter. 
É conhecida a apetência por se pertencer às primeiras, embora seja nas segundas que se pode ganhar mais. Principalmente pela solidez que a primeira apresenta. Já apresentou mais, verdade seja dita, por não se conseguir entrar na primeira, haver uma maior garantia de se lá permanecer muitos e muitos e bons anos. Embora a situação atual obrigue a que seja muito mais (cada vez mais) difícil lá entrar (tirando as tachadas ou tachativas exceções). Nunca as pessoas que entraram para um emprego estatal pensavam que sair podia acontecer. Bom, apesar de todos os despedimentos da administração pública - a maior parte, digo eu, convites para uma aposentação antecipada - ainda não é assim tão fácil.
Conheço esta e a outra realidade (a privada) por dentro: ou por experiência própria, ou por via de outrém.

Há casos e desabafos que me deixam tão perplexo e indignado, que me custa ainda mais a acomodação à situação. Nalguns não posso fazer nada, noutros nada posso fazer, a não ser dar-lhes guarida e alento com a minha atenção e apoio

Quem não conhece alguém que se acomodou tanto à empresa, que faz questão de se considerar  património dela? Essa pessoa está lá tão incrustada, que contra a sua incompetência já não se pode fazer nada para que ela seja dispensada. Nem lhe são atribuídas responsabilidades ou consequências por isso. É claro que não sou a favor da punição, mas há uma impunidade tão grande, que mete dó! E as instituições têm de lidar com esse problema, quase sem solução. Por isso existem trabalhadores que apenas estão empregados: relegados para um canto, por um qualquer (des)conhecido motivo, continuam a receber o seu ordenado sem que nada façam ou contribuam para o desenvolvimento da empresa ou instituição. É capaz de haver consciência destas situações por parte das instituições e direções responsáveis, mas nada fazem ou nada podem fazer. O que fazer? A questão deixa-se, retórica, no ar para uma resposta tão utópica quanto ela. Deixo para os diretores de recursos humanos, os entendidos, a procura para a solução.



Depois há a outra face, de uma outra moeda. A daquelas pessoas que têm de se sujeitar às regras do mercado de trabalho, com todas as fragilidades que o regem. Conheço, particularmente, vários casos, mas um deles serve-me aqui de exemplo. O de uma pessoa amiga, relativamente jovem (nos trintas e poucos) e com uma formação superior, na àrea da banca. Não está a conseguir vingar na área, portanto sujeitou-se a aceitar um emprego precário. Não pode faltar, quase não pode ir à casa de banho e almoçar só se for em poucos minutos, e só se. Já lhe aconteceu daquelas urgências fisiológicas que 'atacam' qualquer pessoa que esteja viva, e viu-se bem enrascada, pois não tem quem a substitua no local de trabalho e não pode fechar a porta do estaminé. A última que lhe aconteceu foi ter sido "obrigada" a trabalhar na folga, sem direito a qualquer compensação de tempo ou de valor /hora acima do horário normal. Como não conseguiram arranjar uma substituição, teve a consciência a pesar-lhe para não faltar ao compromisso que não tinha e a empresa - privada - desresponsabilizou-se de uma responsabilidade que é sua, em última instância. Mas ela não faltou.

Marco falta à empresa desta pessoa, mas não de material: de humanidade.
Se eu fizer queixa à guarda, será que lhe vai acontecer o mesmo que a outras vítimas, de outros crimes e injustiças?

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Gurgulhus Humanus: 10 espécies de uma raça sem extinção


Esta é uma lista não exaustiva de coisas que não se devem fazer em público mas a que recorrentemente assisto no dia a dia, em diversas situações e locais. A maior parte delas nem em privado se deviam fazer. Algumas são mesmo ilegais, mas ninguém se preocupa com isso. Talvez porque não haja controlo nem fiscalização que as previna ou puna. Mas, sobretudo, porque não há civismo nem educação. Coisas... básicas?

Aqui vos deixo os tipos ou espécies de humanos que ainda se conseguem encontrar no nosso belo planeta, inesperadamente em qualquer situação pública. Gorgulhos da sociedade que batizei de Gurgulhus Humanus

TIPOS DE GURGULHUS 

1. Os Cheira-Sovacos. Ainda hoje presenciei este comportamento que uma fêmea (armada à senhora) teve numa estação fluvial enquanto aguardava o barco. O duplo gesto não foi feito disfarçadamente. Mas que culpa tem a senhora, ou os senhores seus pais que a educaram, se estava muito calor? Medidas drásticas são necessárias para situações extremas. Ainda se o sorver do nariz (vulgo cheirar) refrescasse ou anulasse os cheiros... Ou há uma nova estirpe de humanos com super-poderes que ainda não conheço? A generalizar-se, quem fica mal são as marcas de desodorizantes. Pois é, este tipo de humano - da família dos Espreguiça-os-Braços - nunca fica satisfeito com uma snifadela e sente a necessidade de ir mais além. Não apenas cheira um mas os seus dois sovacos. Afinal, eles vieram em número par por algum motivo, não?

2. Os Tira-Macacos. Esta podia ser a profissão daquelas pessoas que trabalham no jardim zoológico e que se dedicariam a tirar os amigos simeos da jaula. Não. Trata-se de um gesto mais corriqueiro do que se imagina. Esta espécie é muitas vezes avistada a tirar macacos do nariz sobretudo nas filas de trânsito, apesar de pensarem que os vidros dos seus veículos só permitem ver de dentro para fora. Pior mesmo, seria se transformassem este hábito numa colheita alimentar e inventassem uma nova iguaria: macacos ao chefe porco. E se esta moda culinária pega? Macacos me mordam! Bom, sempre era mais um programa na televisão para explorar. O Masterchef ou o The Taste que se cuidem.

3. Os Ajeita-Tintins. Devido à sua constituição anatómica, o gesto só se consegue encontrar nos machos da espécie. Quanto mais macho, mais se têm de ajeitar os 'saquinhos'. Não é que seja sinal de maior virilidade, mas o que é certo é que há fêmeas que lhes acham piada. Por isso continuam a reproduzir-se. Não é que tenham culpa. Afinal, nasceram com aquilo ali no meio das pernas e das duas uma: ou ajudam à locomoção (andando, por exemplo) ou saem do caminho. Como a primeira ainda não é uma opção validada pelos cientistas e a segunda não se consegue porque os ditos tin tins ainda não têm vida própria, lá terá que ser a mãozinha a dar... uma mãozinha! Então como fazer sem que o ato seja reprovável? A solução poderá ter surgido há uns anos, não pela mão da ciência mas do teatro, com uma dupla de comediantes - José Pedro Gomes e António Feio - na peça Conversa da Treta. Aí, um dos personagens - o Zezé, se a memória não me falha - assumia o comportamento e dizia que para o disfarçar, quando andava e precisava de o fazer aproveitava as curvas e a mudança de direção para levantar a perna contrária para os coçar ou ajeitar. Engenhoso e criativo, não?

4. Os Beata-pró-Chão. Em qualquer chão: no passeio, na estrada, na praia... As beatas de cigarro são uma praga. Elas são as 'caganitas' que alguns fumadores teimam em deixar no mundo. Será que pensam que elas desaparecem por si só ou têm esperança que se multipliquem na terra, multiplicando também a sua orgulhosa ponta? Esta espécie de Humanus não tem ponta de vergonha e não há ninguém que lhes pegue na ponta das orelhas e lhes dê um bom puxão, para ver se aprendem. O hábito está entranhado e a sujidade que este pequeno objeto deixa é inversamente proporcional ao seu tamanho. Quantas vezes na paragem do autocarro não só tenho de apanhar com o fumo daqueles que teimam em poluir o meu espaço aéreo - e consequentemente os meus pulmões - como tenho de assistir ao seu atiro ao alvo que nunca falha o chão. E o caixote do lixo ali tão perto! Tenho um vizinho que não fuma dentro de casa. Vai para a janela fazê-lo. Muito bem. Merecia um prémio pelo gesto, não fossem as beatas que teima em plantar no passeio do prédio. Já não leva o Óscar para o melhor vizinho do mundo. Nem para o de melhor ser humano. Será que o é?

5. Os Cospe-pró-Chão. Podiam ser uma banda rock-punk. Que eu saiba, não. São provavelmente primos não muito afastados dos Beata-pró-Chão e vêem-se cada vez menos. Estarão a extinguir-se? Avisem a Quercus. O seu comportamento pode observar-se sobretudo nos membros mais velhos da espécie. Muitas vezes - se não a maior parte das vezes - o ato (de cuspir para o chão) é imediatamente antecedido por um sorver nasal (vulgo 'escarrar') com que eles procuram potenciar ainda mais o ato de cuspir. Talvez quanto mais verde for, melhor. Ou, como dizia um amigo meu há uns anos, "Se tivesse casca era ovo."

6. Os Grita-ao-Telelé. Bem, eles não gritam, propriamente. Falam alto. Quem em público nunca teve em contacto com esta maravilhosa espécie de cordas vocais em perfeito estado de conservação? Há quase sempre um num metro ou num autocarro. Distinguem-se das outras pessoas por falarem muito alto quando recebem uma chamada telemóvica (através do telemóvel). Habitualmente são muitos os olhos que se viram na sua direção quando, depois de uma musiquinha (normalmente também com volume no máximo), atendem como que a assinalar a sua presença no meio de uma multidão, na rua, num transporte ou qualquer outro local público. O seu "Tou..." (variante "Tou sim") não costuma passar despercebido e a conversa pode ouvir-se por qualquer um à sua volta, num raio considerável de alguns metros. A sua intimidade exposta não costuma intimidá-los!

7. Os Música-no-Telelé. São com certeza da mesma família da espécie anterior mas estes em vez da sua própria voz, colocam a música que estão a ouvir no telemóvel tão alta que todos à sua volta, num raio suficiente para incomodar, mas que raio nenhum consegue partir. Eu pensei que os fones eram um objeto generalizado e que até costumam vir com a maior parte destes aparelhos. Terão perdido o livro de instruções ou a sua falta de instrução obriga a que chateiem toda a gente à sua volta? 

8. Os Boca-Aberta. Há aqueles que não conseguem deixar de a ter aberta para falar e os que a deixam aberta enquanto comem. Só não comem a mosca que podia entrar enquanto a têm tanto tempo aberta, mas nem o inseto cai na armadilha. Ele sabe que se entrar vai ter que ouvir. Mas pior mesmo é vermos o que as outras pessoas estão a mastigar, com todos os pormenores gráficos que elas fazem questão de mostrar. Em público ou em casa, deve fazer-se como nos ensinaram (a mim pelo menos): a comer de boquinha fechada. Não é irritante ouvir o crunch do almoço do vizinho do lado no restaurante? Pior mesmo, é este ato vir acompanhado de um sonoro arroto. Mas somos gregos, ou quê?

9. Os Língua-Suja. Não é bonito de se ouvir. Não fica bem a ninguém. Não está nem nunca esteve na moda. Os palavrões deviam ficar apenas com quem os praticam verbalmente. Devem evitar-se, sobretudo, ao pé de crianças. Recentemente presenciei uma mãe (suponho) com uma cria pela mão a subir uma calçada de Lisboa que àquela hora da manhã costumo descer, e essa senhora (eu sei, é um exagero, a criatura nem sequer tinha espécie definida, até eu a inventar aqui) ia a falar muito alto com uma outra que a acompanhava mais à frente (também com uma criança pela mão), vociferando uns palavrões hardcore no meio de um discurso que nada devia à mínima inteligência, mas que tudo deve à ignorância e, principalmente, à falta de educação. Sem tento na língua, nem sequer tenta disfarçar a falta de educação. A vítima, ainda sem o saber (algum dia o saberá?) será a criança, que muito provavelmente irá seguir o mesmo caminho descarrilado da linguagem inapropriada, transmitida pelos progenitores, num mau trato infanto-verbal que a lei não pune. Não será  caso para mandar lavar a boca com sabão?

10. Os Fura-Filas. Não devem ser confundidos com os furões, uma diferente espécie do reino animal, embora tenham adquirido os seus hábitos sem o saber. Distinguem-se deles por terem cérebro, apesar de não parecer. Os Fura-Filas são aqueles Humanus que comem muito. Comem tanto, que devem ter comido alguma família real ou um dos seus membros. Por isso se costuma dizer que eles têm o rei na barriga, que são presunçosos e se julgam mais do que os outros. Não são. Nem que fossem da realeza, nada dá o direito a uma pessoa de passar à frente de outra(s) numa qualquer fila, das muitas que diariamente se podem encontrar em qualquer lugar. Tirando raras exceções que são, basicamente, estar grávida, ter dificuldade em locomoção ou ter alguma outra deficiência que impeça de conseguir respeitar uma fila. Não conta a deficiência mental derivada apenas por pura falta de civismo. Esses devem viver noutra fauna.

E MUITOS MAIS

Conforme adverti no início, a lista não está completa. Faltam muitos mais. Como os Corta-Unhacas (que se divertem a cortar as unhas em qualquer lado... tic, tic, tic... Não é música mas fica no ouvido) ou os Tira-Cera (da família das espécies que gostam de enfiar os dedos nos orifícios do corpo humano, neste caso os ouvidos. Pensarão que são o Shrec e que vão fazer velas com o produto da colheita?), entre outros.

QUAIS TE IRRITAM MAIS?

Se não os incluí aqui, envia-mos e eu tratarei de os colocar num futuro post, neste blog. 


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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Não há feira que não dê em fartura (2003)


O cheiro das farturas não enjoa ao princípio da noite. O sol foi embora a altas horas, já a lua se queixava. As luzes da feira confundiram-se com o lusco fusco do final do dia e a festa apenas começava.

No pavilhão dos stands que mostravam (fazem eles o seu papel, como se ninguém que ali se encontra não se quisesse mostrar) e ao fundo o palco. A música contagia todos lá dentro. Mesmo quem não é adepto do pézinho da baila a perninha que por sua vez leva todo o corpo atrás. Mas quem dá o show dança o ventre com orgulho de quem já aprendeu esta nova modalidade e está aqui para todos verem. E vemos. E dança. E remexe. E não esquece. Está certinha, sim senhora, mas falta a alma que faz tanta falta quanto a cor que não lhe pega, neste meu país de todas as estações. Com pena (talvez não) que o Inverno deixe a pele sem marcas do sol, bamboleia-se, não é isso que a vai preocupar. O importante é não se enganar. Afinal as luzes sempre disfarçam e com o seu barulho não se percebe.

Cá em baixo o público vibra… não, vidra: está vidrado: eles, com os corpos das bailarinas, elas, por não terem os seus corpos. Em alguns casos, ainda bem, nem todos são figuras-modelo, muito menos bailarinas-modelo: se não se sabe a coreografia mais valia mexer a belly com uma sessão de yoga, por exemplo. Pelo menos tudo pode mexer – o poder é da mente.

Seja qual for o público que assiste, o desejo está contido. Seja a pitinha, a gaja ou o gajo, o segredo do desejo de ver o show não sairá deles próprios. Nem do pavilhão. Ser bailarino por um dia, por uma vida, aprender a arte ou lamentar que a namorada não saiba ou faça, um dia quem sabe numa festa surpresa, ficará apenas no íntimo de cada um. E é apenas seu.

A noite, por sua vez, é de todos e todos andam às voltas. Cá fora não se sabe nem se imagina o que se viu e ouviu lá dentro. No dragão da noite andámos à volta pela feira. Preços baixos, quase sempre (nem sequer é publicidade a hipermercado), a magia é franca e as farturas pedem-se com olhos e voz gulosa, mas comedida:
- São só duas, por favor!
E bastam! Fartam!

Vou-me embora. Como-as amanhã para relembrar.



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DISPONÍVEL VERSÃO EM INGLÊS EM

http://mywittywit.blogspot.pt/