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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Cada concha tem um segredo que quero partilhar


...E cada gota de um Oceano
A lágrima de uma dor
E cada choro desse Oceano
Saliva do beijo... melhor...
Dos beijos... molhados.

...E não digas nada,
Não faças, não beijes,
Não contes a ninguém
Que o segredo que eu guardo
Que a palavra que eu escondo
É tua também

...E que é húmido o mar.
Talvez seja suor
Meu amor
Transpirar,
Do trabalho de amar.

...E se forem anos?
Quantos não tens
Não os contes
Não os digas
Nem contes a ninguém.

...Que a palavra que eu guardo
Que o segredo que eu escondo
Que a concha do mar
Que o beijo molhado
Que a vida suada
É tua também.

Shellshocked, de Micheline Robinson

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Tudo o que precisamos (está aqui), de Mão Beijada


A arte do beijo ou o beijo nas artes

Este post devia começar com o acompanhamento do início da Marselhesa, o hino nacional francês. Só precisamos de imaginação. E de Amor, como nos diz a canção que John Lennon (e Paul McCartney?) escreveu na década de sessenta do século passado, All You Need Is Love (numa tradução literal, Tudo o que tu precisas é de Amor). A primeira vez que os Beatles a tocaram ao vivo foi na televisão, no programa Our World, a 25 de junho de 1967, e foi visto por 400 milhões de pessoas em 25 países. Também esta música começa com a introdução da Marselhesa, que lhe dá o ritmo para uma marcha que iria durar muitas décadas e marcar a própria palavra Amor.
Capa dos disco All You Need Is Love,The Beatlesm Apple Corps, Ltd.

Inspirou, com certeza, muitas outras músicas e muitas mais pessoas. Assim é o poder da música, sobretudo quando aliado a esse grande sentimento, que por sua vez inspira, se não todos, a maior parte dos seres humanos do nosso planeta e todo o Mundo da Arte. Da música à pintura ou à escultura, do cinema ao vídeo, da arquitetura ao design, ele está em todo o lado, como relembraram os Wet Wet Wet em 1994 noutra, que se tornou também um hino ao Amor nesse meado de década (e nos anos que se seguiram), com Love Is All Around, (O Amor está em todo o lado) : dos dedos das mãos aos dedos dos pés, num sentimento que vai crescendo, crescendo, como um elástico que nunca rebenta :
«I feel it in my fingers / I feel it in my toes
Love is all around me / And so the feeling grows
It's written on the wind / It's everywhere I go
So if you really love me / Come on and let it show
You know I love you, I always will / My mind's made up by the way that I feel / There's no beginning, there'll be no end / 'Cause on my love you can depend»
Abstract kissVeronica Jackson

Muita gente depende do Amor. E quando falamos em Amor, falamos num sentimento que não tem barreiras de comunicação, de opções e aptências sexuais, de género, de raça ou etnia, de cores de pele, de cabelo, de olhos. É abstrato. Daí a facilidade com que ele se expande e reproduz, ainda que alcançá-lo seja uma tarefa difícil, mas sempre recompensadora. A sua busca também pode ser feita por um caminho cheio desse sentimento.
É comum dizer-se que Amor há só um, mas eu acredito - e estou convencido - de que há muitos tipos de Amor e, por isso, se pode amar muitas pessoas. Logo, não há só um nem dois (como cantava João Simão da Silva, mais conhecido por Marco Paulo). Há o Amor dos Amantes, o Amor dos Pais, dos Filhos, da Família, dos Amigos. Deixo de fora o amor pelas coisas, um tipo de amor minúsculo na intenção, que prolifera como uma erva daninha e não faz jus a 'outro' tipo de Amor, com letra grande e sentimentos gigantes.

Les Amants (1928), Rene Magritte (1898-1967), 
pintura surrealista a óleo, no género simbólico, 54 x 73.4 cm
Gallery: Museum of Modern Art, New York, USA

Que melhor maneira do que celebrar a Vida e o Amor, senão com um beijo? Um, ou muitos. Beijar é uma Arte milenar que não compromete ninguém e ninguém deve ser obrigado a dá-los. Muito menos a não recebê-los. Por isso nunca se retraiam nem contraiam na sua distribuição gratuita. A canção escrita pelo Carlos Paião e celebrada por um dos melhores humoristas de sempre do nosso país, o excelentíssimo grande senhor Herman José, é um gracioso exemplo do beijo como tema, numa música portuguesa :
«- Oh chega cá...
- Não vou.
- Tu és tão linda...
- Pois sou.
- Dá-me um beijinho...
- Não dou.
- Dás ou não dás?
- Não e não.
- Então dou eu...
- Oh! isso não.
- Dá-me um beijinho...
- Não dou não.
Ora dá cá um e a seguir dá outro, / Depois dá mais um que só dois é pouco / Ai eu gosto tanto e é tão docinho / E no entretanto dá mais um beijinho
- Então dá lá...
- Já disse.
- Eu faço força...
- Que parvoíce.
- Dá-me um beijinho...
- Oh que chatice.» -
Canção do Beijinho
Ela armava-se em púdica, mas não acredito que ela não quisesse mesmo um. Estava a ser teimosa ou simplesmente tímida. "Deslarga-me da mão", apetece dizer.

Kiss II (1962), Roy Lichtenstein (1923-1997), pintura Pop art,
44,8 cm × 172,7 cm, Location: Private collection

Até a ciência o tenta compreender, desde a sua origem até à sua química e efeitos nas células e nos nossos neurónios, procurando a resposta a esse efeito misterioso. No século XVII já Jonathan Swift dizia, em jeito satírico, que
«foi tolo o primeiro que inventou o beijo.»
A cientista Helen Fisher, uma antropóloga de New Jersey (EUA) disse uma vez que os humanos desenvolveram três sistemas principais no cérebro para acasalar ou se reproduzir, e que o beijo ajuda-nos a escolher o melhor parceiro para procriação :
«o ato de beijar apareceu para estimular esses circuitos cerebrais de uma maneira única. Pode ter evoluído como uma estratégia biológica de ação rápida para avaliar o companheiro. Os homens gostam de beijos mais húmidos, com bocas mais abertas e mais movimento da língua. A hipótese é que eles estão a tentar inserir pequenas quantidades de estrogénio para ver em que estado está a mulher no seu ciclo menstrual para indicar o estado de sua fertilidade.»
Podem ler o artigo completo no The Guardian online.
O Beijo (The Kiss) (1907–1908), Gustav Klimt, pintura, 1,80 m x 1,80 m
 Österreichische Galerie Belvedere, Secessão de Viena, Art nouveau

O Beijo de Amor de que quero falar é aquele que celebra a Vida. Um sem o outro não co-existem.
«Where there is love there is life.» - Mahatma Gandhi 
(Onde há amor há vida.)
Eu prefiro olhar para o Beijo como um ato mais romântico ou simplesmente carnal, mesmo estando consciente do poder biológico. Muitas vezes é preferível a insconsciência pura (desde que esta não magoe ninguém). É preferível atiramo-nos de cabeça, sem pensar muito nisso. E mergulhar :
«You are the port of my call / You shot and leavin' me raw / Now I know you're amazing / 'Cause all I need / Is the love you breathe / put your lips on me and / I can live underwater, / underwater, underwater!
With your love I can breathe /
I can breathe underwater» - Mika
Só quem mergulha num beijo bem dado é que sabe. E o Mika, que cantou a música Underwater, sabe que ele pode ser a nossa botija de oxigénio. É a origem do Amor! (The Origin of Love é também o nome do álbum onde incluiu o referido tema, escrito em conjunto com Littlemore e Paul Steel).

The birthday kiss (1925), Artist: Marc Chagall (1887-1985), pintura

Há o beijo à francesa, o beijo xoxo, o que se dá na cama e o que se dá em qualquer lugar. O beijo mitológico e o bíblico, o do Cupido e o de Judas, o real e o fictício, ou apenas demasiado seco. Eu, sem vos querer chatear mais com esse ato que pode ser muito molhado, aqui vos deixo uma série deles. Estou certo que há muitos mais. Afinal, o Amor está aqui e em quase todo o lado. Quase. Onde não esteja, vamos fazer por isso. Porque o Amor eleva-nos. E a Arte também. Tal como o Amor, ela assume muitas e variadas formas : pedra tornada escultura, tela pintada de e com paixão, momento capturado numa lente, em 8mm ou 8 megabites, metal cortante ou madeira aconchegante, música mais apaixonante ou em ritmo relaxante. Até de bocados de nada, de lixo que mais ninguém quer, se consegue mostrar o que um Beijo quer dizer. Quer sejam cinematográficos ou suavemente discretos, podem ser muito diferentes mas dizem o mesmo : que o Beijo é assim e assado. Mas é preferível um pouco molhado!

The Kiss (2010), Vik Muniz, fotografia com técnica mista

The Kiss in Times Square (1945), Alfred Eisenstaedt, fotografia

The kiss (1892-93), Toulouse Lautrec (1864-1901), 
pintura pós-impressionista, sobre cartão, 39 x 58 cm, Coleção privada

The kiss (1931), Pablo Picasso (1881-1973)
  
The Judas Kiss (2008), Mark Satchwill, aguarela e guache

Beijo (Sayeva), Kuba Wojewoda, fotografia
[http://kubawojewoda.deviantart.com]


A bailarina II (1925), Joan Miró (1893-1983), pintura
Fundación Joan Miró en Barcelona

Psyche Revived by Cupid's Kiss (1787-1793; 1800-1803), 
Antonio Canova, mármore, 155 cm × 168 cm, 
Louvre, Paris; Hermitage Museum, Saint Petersburg


O Beijo (Le Baiser) (1901-4), Auguste Rodin (1840 1917) 
mármore, 1,80 m x 1,2 m x 1,5 m, 3.180 kg, Tate Museum

Rocking Chair for Two, design de mobiliário

 Tsang Cheung Shing, Hong Kong, escultura

 Diogo Lopes diz... “O quanto eu gostaria de estar na tua pele”,
poesia interpretada em vídeo
[se não consegues ver o vídeo clica aqui]

Homem de Papel (Paperman), curta animada 
[se não consegues ver o vídeo clica aqui]

Underwater, Mika, 2012,
Casablanca Music, 
vídeo de música
[se não consegues ver o vídeo clica aqui]

Just Give Me A ReasonP!nk ft. Nate Ruess2012
RCA Records, 
vídeo de música
[se não consegues ver o vídeo clica aqui]

Best Kisses in Movies, compilação em vídeo (7 minutos)
[se não consegues ver o vídeo clica aqui]
Features 
O V for Vendetta O Amelie O Spiderman O Wall-e O Atonement O A/R Andata+ritorno O My blueberry nights O 500 days of Summer  Romeo+Juliet O Titanic O Forrest Gump O The terminal O Pirates of the Caribbean O When Harry met Sally O Notting Hill O Four weddings and a funeral O Some like it hot O Moulin Rouge O Spiderman O Kick Ass O Watchmen O X-men O Colombiana O Jerry Maguire O Zombieland O Adventureland O Elizabethtown O Colombiana O Harry Potter O Bram Stoker's Dracula
O The Lord of the Rings O Star Wars O Jennifer's Body O Cruel Intentions O Vicky Cristina Barcelona O Black Swan O Girl, interrupted / Wild Things O Brokeback Mountain O In&Out O The Godfather O Shakespeare in love
O Big Fish O Gone with the wind O Twilight O Jeux d'enfants O Serendipity O Love actually O Stranger than fiction O The recruit O The Island O Match Point O The Graduated O 500 days of Summer O Love and other drugs O Roger Dodger O Adventureland O Fever Pitch O Black Swan O Rain man O Top Gun O When Harry met Sally O Bridget Jones O Shallow Hal O Lady and the tramp O Lion King O Snow White and the Seven Dwarfs O Simpsons O Hercules O Nightmare before Christmas O Ghost O Army of Darkness O The Goonies O A Kinght's Tale O Along Came Polly O A beautiful mind O An Officier and a gentleman O The postman O The Crow O The Mask O Non ci resta che piangere O Frankie & Johnny O Sin City  O Matrix  O  Back to the future O American Beauty O Indiana Jones O Cheri? O Cashback O Slumdog millionaire O Garden State O Lost in translation O Excess baggage

Love Is All AroundWet Wet Wet,1994
Mercury Records Limited, 
vídeo de música
[se não consegues ver o vídeo clica aqui]

«You gave your promise to me and I gave mine to you
I need someone beside me in everything I do» - Wet, Wet, Wet
«I'm Living for love / Not gonna stop/ 
Love's gonna lift me up» - Madonna

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A Vida do Céu à Terra


O sol, o dia e as águas
Num dia de janeiro
Juntaram-se e fizeram
O seu pacto primeiro

O jogo fica, embala
E dura, longo até junho
E em voz estridente soaram,
Gritaram: - É para vós este mundo!

Não sentem dizer:
Estou aqui, era inteiro
Até que vós me magoastes.
É pois, este, o acto III.

A estação, neste mês,
Esconde o frio, é um escudo
Como negra viuvez
Tal inverno sisudo

A chuva, então, a cantar
Cai na terra e ajuda a videira
A sua uva nascer, a brotar
Diz, já fruto, à sua parteira:

-Tão boa, tão fresca tu és
Nesta vida já vivo e bem fundo
P’ra beber só tenho a raiz
P’ra viver tu és água, és tudo.

A madrinha esconde a sorrir
A modéstia que é vez primeira.
Não a vemos pois está a fugir
Tal a chuva na tarde soalheira.

Vai embora, não diz quando vem
E as flores aguardam, contando
Às roseiras, avós de sua mãe
As histórias que haviam escutado.

Imagem: detalhe de Fluid Painting 58 (2012), acrílico sobre tele,
Mark Chadwick (www.markchadwick.co.uk)

domingo, 16 de novembro de 2014

Doce e Sem Açúcar


Amora silvestre
Que sabor tens no trago?
É amor que tiveste?
Óh, amor, tão amargo.

Porque choras, coisinha?
Estás tão triste, não fiques
Com cara de andorinha
Pronto, és doce, docinha.

Já te disse, avelã
Deixa a prima em paz
Já te disse a mamã:
Se não quiseres ir, não vás.


* * *
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terça-feira, 8 de julho de 2014

Para ser : nascer, criar, amar e morrer


E aprender. E comer. E tudo aquilo que me lembre da razão de respirar.
Podes orar, ou não. Não é preciso seres formal no ato de agradecer a dádiva da vida.
Não é preciso plantares uma árvores, nem teres um filho, nem sequer escrever um livro.
Nem é preciso, sequer, fazeres um rascunho. Não há tempo para isso.
RISCA-O!
Não vás ao ensaio geral, deixa a estreia de cada momento vir até ti.
Ou vai até ao fim do mundo e regressa.
Ou vai para além dele, e sonha.
Ou então deixa-te estar, simplesmente, na vida e naturalmente... vive-a!

(Jorge Augusto)

_______________________

"Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina, Sê um arbusto no vale mas sê o melhor arbusto à margem do regato. Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore. Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva e dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada, Sê apenas uma senda, Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela. Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso... Mas sê o melhor no que quer que sejas."
, Pablo Neruda

segunda-feira, 16 de junho de 2014

(Somos) Os mais belos feios do mundo



Chamam-nos tanta coisa e nada:
Gordos, Magros, Pretos, Brancos,
Gays, Lésbicas, Heteros, Bi, tris... Oui?
Divorciados, Mal amados,
Chineses, Malteses,
Totós, Chiribitatatatas, Urras, urras,
Feios, Mal feitos, Desengonçados,
Caixas de óculos, 
Isto, Aquilo, Aqueloutro,
Serão eles alguns doutos?

Chamam-nos tanta coisa errada!
Não sou gordo branco maltês
Nem magro preto ou true blue
Não sou aquilo que se vê
Não sou aqueloutro em quem não crês
Nem de binóculos o verias
Nem de microscópio
Nem de macroscópio
Nem de telescópio 
Nem de endoscópio
O sentirias.

Gente que devia estar calada,
Que deve ter alguma coisa entalada,
Um parafuso ou uma porca mal oleada.
Nesta coisa da definição,
O problema vem de antemão.
Salta à vista o erro crasso,
E eu tudo temo e... 
O que é que faço?

(Jorge Augusto)

———
Somos as coisas que moram dentro de nós. Por isso há pessoas que são bonitas. Não pela cara, mas pela exuberância do seu mundo interno. Há a estória da linda princesinha que foi enfeitiçada e, sempre que abria a boca, dela só saíam cobras, sapos e lagartos. Algumas pessoas, quando falam, delas sai um arco-íris.
(Rubem Alves, Do Universo à jabuticaba)
People are all the same / And we only get judged by what we do / Personality reflects name / And if I'm ugly then / So are you / So are you
Ugly, Sugababes
You are beautiful no matter what they say / Words can't bring you down, oh no / You are beautiful in every single way / Yes, words can't bring you down, oh no / So don't you bring me down today 
BeautifulChristina Aguilera 

 The Ugly Duchess (1525-1530), de Quentin Massys

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Escrita quadra-da



Este ano no dia 13 de junho o santo padroeiro de Lisboa dá mais um feriado para festejar, com arquinho, balão e mangerico a acompanhar. No mesmo dia 13, mas de um junho de 1888, nascia no largo de São Carlos em Lisboa (no número 4, 4º. esquerdo, para os mais curiosos dos pormenores factuais) uma pessoa que foi poeta e que não por acaso também foi Pessoa de sobrenome. Mas se foi poeta, o mais correto é dizer que ainda "é", já que esta espécie literária tem o dom maravilhoso de se tornar eterna. Bem, não é que todo o poeta o seja, mas este, que sentiu tudo de todas a maneiras, sinto muito mas já está eternizado na literatura portuguesa.

Até sentiu as quadras populares à sua tão caraterística maneira:

A quadra é um vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma. Da órbita triste do vaso escuro a graça exilada das flores atreve o seu olhar de alegria. Quem faz quadras portuguesas comunga a alma do povo, humildemente de todos nós e errante dentro de si próprio. Ser intensamente patriótico é, primeiro, valorizar em nós o indivíduo que somos, e fazer o possível por que se valorizem os nossos compatriotas, para que assim a Nação que é a suma viva dos indivíduos que a compõem, e não o amontoado de pedras e areia que compõem o seu território, ou a coleção de palavras separadas ou ligadas de que forma o seu léxico ou a sua gramática — possa orgulhar-se de nós que, porque ela nos criou, somos seus filhos, e seus pais, porque a vamos criando.
E deixou algumas, bem diferentes da poesia a que nos habituou:
Cantigas de portugueses
São como barcos no mar 
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.

A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.

No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem estar.

Vale a pena ser discreto?
Não sei bem se vale a pena.
O melhor é estar quieto
E ter a cara serena.

Tenho um relógio parado
Por onde sempre me guio.
O relógio é emprestado
E tem as horas a fio.

Aquela senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: "Não incomodo". 

Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.

Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

Deixaste cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada.

Não há verdade na vida
Que se não diga a mentir.
Há quem apresse a subida
Para descer a sorrir.

Santo António de Lisboa
Era um grande pregador
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor.
Quadras ao gosto popular, Fernando Pessoa em 
O rosto e as máscaras


SABIA QUE...
Pode encontrar as obras de Fernando Pessoa gratuitamente (em domínio público) aqui.