Mostrar mensagens com a etiqueta música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta música. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Levem-me ao céu - Serfei Polunin, Hozier e David LaChapelle


Quando se junta Sergei Polunin, Hozier e David LaChapelle, casa-se o que de melhor tem a performance através da Dança, com a Música e a Realização (Vídeo).

No vídeo (que podes ver abaixo) Polunin improvisa sobre a música Take Me to Church, de Hozier, e LaChapelle capta o essencial com a sua visão fotográfica. A simplicidade contrasta com outros trabalhos do reconhecido e por vezes polémico fotógrafo. É por aí, e por isso, que este vídeo me eleva. Não me leva à igreja, mas definitivamente faz com que comungue com ele.

(se não conseguires visualizar o vídeo clica aqui)
Sergei Polunin, "Take Me to Church" de Hozier, 
Realizado por David LaChapelle


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Grammys 2015 - um show na música


A 57ª edição dos Prémios Grammy decorreu ontem, dia 8, no Staples Center em Los Angeles. O londrino Sam Smith, de apenas 22 anos e que a revista Billboard definiu como tendo "uma presença vocal magnética", foi o grande vencedor, levando 4 das cobiçadas grafonolas douradas.

Beyoncé, Pharrell e Beck levaram 3 dos 83 que foram distribuídos (mais um do que em 2014). O grande show da música foi transmitido pela CBS e o rapper LL Cool foi novamente o anfitrião pela quarta vez consecutiva.

Depois de um longo dia de passadeira vermelha, no palco reuniram-se algumas das lendas ainda vivas da música e da performance, ao longo de quase quatro horas de emissão. Deixo-vos os nomes dos performers e respetivas performances.

E, obviamente, também a lista dos nomeados e vencedores de cada categorias.

Madonna no Grammy 2015 (Foto: John Shearer/AP)
Madonna (Foto: John Shearer/AP)

PERFORMERS & PERFORMANCES
AC/DC ("Rock or Bust", "Highway to Hell"), Ariana Grande ("Just a Little Bit of Your Heart"), Tom Jones, Jessie J ("You've Lost That Lovin' Feelin'"), Miranda Lambert ("Little Red Wagon"), Kanye West ("Only One"), Madonna ("Living for Love"), Ed Sheeran ("Thinking Out Loud"), Electric Light Orchestra ("Evil Woman", "Mr. Blue Sky"), Adam Levine e Gwen Stefani ("My Heart Is Open"), Hozier e Annie Lennox ("Take Me to Church", "I Put a Spell on You"), Pharrell Williams ("Happy"), Katy Perry ("By the Grace of God"), Tony Bennett e Lady Gaga ("Cheek to Cheek"), Usher ("If It's Magic"), Eric Church ("Give Me Back My Hometown"), Brandy Clark e Dwight Yoakam ("Hold My Hand"), Rihanna, Kanye West e Paul McCartney ("FourFiveSeconds"), Sam Smith e Mary J. Blige ("Stay with Me"), Juanes ("Juntos (Together)"), Sia ("Chandelier"), Beck e Chris Martin ("Heart is a Drum"), Beyoncé ("Take My Hand, Precious Lord"), John Legend e Common ("Glory").

[Para veres alguma das melhores atuações clica aqui]



NOMEADOS E VENCEDORES
Sam Smith recebe o prémio de Gravação do ano, 
em Los Angeles (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)

Álbum do Ano
Beck, Morning Phase -- VENCEDOR
Beyonce, Beyonce
Ed Sheeran, x
Sam Smith, In the Lonely Hour
Pharrell Williams, Girl

Melhor Novo Artista
Bastille
Iggy Azalea
Brandy Clark
Haim
Sam Smith -- VENCEDOR

Melhor Performance R&B
"Drunk In Love," Beyoncé ft. Jay Z -- VENCEDOR
"New Flame," Chris Brown ft. Usher & Rick Ross
"It's Your World," Jennifer Hudson ft. R. Kelly
"Like This," Ledisi
"Good Kisser," Usher

Melhor Álbum Rock
Ryan Adams, Ryan Adams
Morning Phase, Beck -- VENCEDOR
Turn Blue, The Black Keys
Hypnotic Eye, Tom Petty & the Heartbreakers
Songs of Innocence, U2

Melhor Performance Pop a Solo
"All of Me," John Legend
"Chandelier," Sia
"Stay With Me," Sam Smith
"Shake It Off," Taylor Swift
"Happy," Pharrell Williams -- VENCEDOR

Melhor Álbum Country
Riser, Dierks Bentley
The Outsiders, Eric Church
The Way I'm Livin', Lee Ann Womack
12 Stories, Brandy Clark
Platinum, Miranda Lambert -- VENCEDOR

Melhor Álbum Pop Vocal
Ghost Stories, Coldplay
Bangerz, Miley Cyrus
My Everything, Ariana Grande
Prism, Katy Perry
x, Ed Sheeran
In the Lonely Hour, Sam Smith -- VENCEDOR

Gravação do Ano 
"Fancy," Iggy Azalea ft. Charli XCX
"Chandelier," Sia
"Stay With Me (Darkchild Version)," Sam Smith -- VENCEDOR
"Shake It Off," Taylor Swift
"All About That Bass," Meghan Trainor

Canção do Ano 
"Chandelier," Sia
"All About That Bass," Meghan Trainor
"Shake It Off," Taylor Swift
"Stay With Me (Darkchild Version)," Sam Smith -- VENCEDOR
"Take Me to Church," Hozier

Melhor Álbum Rap
The New Classic, Iggy Azalea
Because the Internet, Childish Gambino
Nobody's Smiling, Common
The Marshall Mathers LP2, Eminem -- VENCEDOR
Oxymoron, ScHoolboy Q
Blacc Hollywood, Wiz Khalifa

Melhor Performance de um Duo/Grupo Pop
"Fancy," Iggy Azalea ft. Charli XCX
"A Sky Full of Stars," Coldplay
"Say Something," A Great Big World ft. Christina Aguilera -- VENCEDOR
"Bang Bang," Ariana Grande, Jessie J & Nicki Minaj
"Dark Horse," Katy Perry ft. Juicy J

Melhor Performance Rap
"3005," Childish Gambino
"0 to 100/The Catch Up," Drake
"Rap God," Eminem
"i," Kendrick Lamar -- VENCEDOR
"All I Need Is You," Lecrae

Melhor Álbum de Música Alternativa 
This Is All Yours, alt-J
Reflektor, Arcade Fire
Melophobia, Cage the Elephant
St. Vincent, St. Vincent -- VENCEDOR
Lazaretto, Jack White

Melhor Canção Rock 
"Ain't It Fun," Paramore -- VENCEDOR
"Blue Moon," Beck
"Fever," The Black Keys
"Gimme Something Good," Ryan Adams
"Lazaretto," Jack White

Melhor Colaboração Rap/Sung
"Blak Majik," Common ft. Jhené Aiko
"The Monster," Eminem ft. Rihanna -- VENCEDOR
"Tuesday," I Love Makonnen ft. Drake
"Studio," ScHoolboy Q ft. BJ The Chicago Kid
"Bound 2," Kanye West & Charlie Wilson

Melhor Canção Rap 
"Anaconda," Nicki Minaj
"Bound 2," Kanye West & Charlie Wilson
"i," Kendrick Lamar -- VENCEDOR
"We Dem Boyz," Wiz Khalifa
"0 to 100/The Catch Up," Drake

Melhor Canção Country 
"American Kids," Kenny Chesney
"Automatic," Miranda Lambert
"Give Me Back My Hometown," Eric Church
"I'm Not Gonna Miss You," Glen Campbell -- VENCEDOR
"Meanwhile Back at Mama's," Tim McGraw ft. Faith Hill

Melhor Performance de um Duo/Grupo Country 
"Gentle On My Mind," The Band Perry -- VENCEDOR
"Somethin' Bad," Miranda Lambert with Carrie Underwood
"Day Drinking," Little Big Town
"Meanwhile Back At Mama's," Tim McGraw ft. Faith Hill
"Raise 'Em Up," Keith Urban ft. Eric Church

Melhor Performance Country a Solo
"Give Me Me Back My Hometown," Eric Church
"Invisible," Hunter Hayes
"Automatic," Miranda Lambert
"Something In the Water," Carrie Underwood -- VENCEDOR
"Cop Car," Keith Urban

Melhor Álbum de Contemporânea Urbana
Sail Out, Jhene Aiko
Beyonce, Beyonce
X, Chris Brown
Mali Is, Mali Music
G I R L, Pharrell Williams -- VENCEDOR

Melhor Álbum de Dança/Eletrónica
Syro, Aphex Twin -- VENCEDOR
While (1, Deadmaus
Nabuma Rubberband, Little Dragon
Do It Again, Röyksopp & Robyn
Damage Control, Mat Zo

Melhor Gravação de Dança
"Never Say Never," Basement Jaxx
"Rather Be," Clean Bandit ft. Jess Glynne -- VENCEDOR
"F for You," Disclosure ft. Mary J. Blige
"I Got U," Duke Dumont ft. Jax Jones
"Faded," Zhu

Melhor Álbum de Pop Latina
Tangos, Ruben Blades  -- VENCEDOR
Elypse, Camila
Raiz, Lila Downs, Niña Pastori & Soledad Pastorutti
Loco de Amor, Juanes
Gracias Por Estar Aqui, Marco Antonio Solis

Melhor Compilação de Trilha Sonora para os Media Visuais
American Hustle
Guardians of the Galaxy
Frozen -- VENCEDOR
Get On Up: The James Brown Story
The Wolf of Wall Street

Melhor Vídeo de Música
"We Exist," Arcade Fire
"Turn Down for What," DJ Snake & Lil Jon
"Chandelier," Sia
"Happy," Pharrell Williams -- VENCEDOR
"The Golden Age," Woodkid ft. Max Richter

Melhor Filme Musical
Beyoncé & Jay Z: On The Run Tour, Beyoncé & Jay Z
Ghost Stories, Coldplay
20 Feet From Stardom, Darlene Love, Merry Clayton, Lisa Fischer & Judith Hill -- VENCEDOR
Metallica: Through The Never, Metallica
The Truth About Love Tour: Live From Melbourne, Pink

Melhor Álgum Reggae
Fly Rasta, Ziggy Marley -- VENCEDOR
Back on the Controls, Lee "Scratch" Perry
Full Frequency, Sean Paul
Out of Many, One Music, Shaggy,
The Reggae Power, Sly & Robbie & Spicy Chocolate,
Amid the Noise and the Haste, Soja

Melhor Álbum de Pop Vocal Tradicional
Cheek to Cheek, Lady Gaga & Tony Bennett -- VENCEDOR 
Sending You a Little Christmas, Johnny Mathis
Nostalgia, Annie Lennox
Partners, Barbra Streisand
Night Songs, Barry Manilow

Melhor Álbum Americana
The River & The Thread, Rosanne Cash -- VENCEDOR
Terms of My Surrener, John Hiatt
Bluesamericana, Keb' Mo'
A Dotted Line, Nickel Creek
Metamodern Sounds in Country Music, Sturgill Simpson

Melhor álbum de Paravra Falada
Actors Anonymous, James Franco
A Call to Action, Jimmy Carter
Carsick: John Waters Hitchhikes Across America, John Waters
A Fighting Chance, Elizabeth Warren
Diary of a Mad Diva, Joan Rivers -- VENCEDOR
We Will Survive: True Stories of Encouragement, Inspiration and the Power of Song, Gloria Gaynor

Melhor Álbum Gospel
Help, Erica Campbell -- VENCEDOR
Amazing, Ricky Dillard & New G
Withholding Nothing: Live, William McDowell
Forever Yours, Smokie Norful
Vintage Worship, Anita Wilson

Melhor Performance Rock
"Gimme Something Good," Ryan Adams
"Do I Wanna Know?", Arctic Monkeys
"Blue Moon," Beck
"Fever," The Black Keys
"Lazaretto," Jack White -- VENCEDOR

Melhor Performance Metal
"Neon Knights," Anthrax
"High Road," Mastodon
"Heartbreaker," Motörhead
"The Negative One," Slipknot
"The Last In Line," Tenacious D -- VENCEDOR

Melhor Canção R&B
"Drunk In Love," Beyonce ft. Jay Z -- VENCEDOR
"Good Kisser," Usher
"New Flame," Chris Brown ft. Usher & Rick Ross
"Options (Wolfjames Version)," Luke James ft. Rick Ross
"The Worst," Jhené Aiko

Melhor Álbum R&B
Islander, Bernhoft
Lift Your Spirit, Aloe Blacc
Love, Marriage & Divorce, Toni Braxton & Babyface  -- VENCEDOR
Black Radio 2, Robert Glasper Experiment
Give The People What They Want, Sharon Jones & The Dap-Kings


Beyoncé no Grammy 2015 (Foto: John Shearer/AP)
Beyoncé (Foto: John Shearer/AP)
Chris Martin e Beck cantam no Grammy  (Foto: John Shearer/AP)
Chris Martin e Beck  (Foto: John Shearer/AP)

  •  
Lady Gaga e Tony Bennet no Grammy (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)
Lady Gaga e Tony Bennet no Grammy (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)
  •  
  •  
Gwen Stefani com Adam Levigne no Grammy 2015 (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)
Gwen Stefani com Adam Levigne (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)
Angus Young, do AC/DC, no Grammy 2015 (Foto: John Sheare/AP)
Angus Young, do AC/DC (Foto: John Sheare/AP)
Ed Sheeran no Grammy 2015 (Foto: AP)
Ed Sheeran (Foto: AP) 
  •  
Katy Perry no Grammy 2015 (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)
Katy Perry (Foto: Lucy Nicholson/Reuters)


segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Mil maneiras de ser criativo - O candelabro de Sia


Sia é uma cantora. Sia é também uma performer. Sia é uma criativa performer que canta maravilhosamente. Embora já tivesse ouvido a sua música, Breathe, na série que segui religiosamente da primeira à ultima e inesquecível temporada da premiada série Sete palmos de terra ( Six Feet Under), não sabia que era dela. Aliás, não sabia quem era ela até que no verão de 2014 lançou o single Chandelier, cujo vídeo oficial tem, à data de hoje, mais de 466 milhões de visualizações no Youtube (quase meio bilião). Fora as vezes que passa nos canais de música e as que toca nas rádios de todo o mundo. 

De vez em quando há uma obra de arte que tem o condão de arrepiar a minha alma. Este é um desses casos. Da voz ao vídeo, à coreografia, à peculiar desenvoltura da jovem bailarina Maddie Ziegler, que consegue uma performance muito adulta e muito além das idades que, como neste caso, não incomodam minimamente a genialidade.

Em cada performance que Sia apresenta traz consigo uma interpretação diferente deste tema (e de outros). Nessas "aparições" televisivas (e não só) a cantora aparece de costas para a plateia e para as câmaras ou com a face tapada. Procura desta forma chamar à atenção para a(s) bailarina(s) que dança(m) a sua música. Consegue também com que eu esteja atento à sua potente voz, que soa tão bem ou melhor que uma gravação de estúdio. Essa é, para mim, uma distinção das pessoas que sabem, verdadeiramente, cantar. Também há outras, que eximiamente interpretam uma canção mas não lhe consegue fazer justiça. Não é o caso nem interessa desenvolver.

Na performance que recentemente fez no SNL ( Saturday Night Live ) Sia usou um visor preto na cara, fazendo sobressair a peruca loura platinada, que é a assinatura do álbum 1.000 Forms of Fear ( 1.000 Formas de Medo ). Desta vez, em vez da maravilhosa bailarina que a costuma acompanhar na maior parte delas, tinha consigo um mimo que a acompanhava interpretando a música com linguagem gestual.

Mas Sia não ficou por aqui. O último single que lançou em vídeo ( no canal de vídeo desde dia 7 de janeiro ) já está a causar polémica. E a polémica no caso dos artistas só faz bem ao seu sucesso. Em poucos dias tem mais de 61 milhões de visualizações. Chama-se Elastic Heart e é protagonizado por Maddie, a bailarina prodígio, a que se juntou Shia LaBeouf, numa relação atribulada a que muitos associam a pedofilia. Eu, sinceramente, não a vejo no vídeo, embora admita que a interpretação do mesmo possa ser essa. Os meus olhos veem corações com elasticidade para dar e vender. E cantar. E dançar, desalmadamente, como se a alma fosse a melhor coisa que temos e que dá razão à nossa vida. Provavelmente é.

Vejam, com os vossos próprios olhos, algumas das atuações que refiro. E já agora, vejam com a alma também. 
Sia - Chandelier (Live on SNL)
Publicado a 18 de janeiro, 2015
Music video by Sia performing Chandelier (Live on SNL). (C) 
2015 Monkey Puzzle Records, under exclusive license to RCA Records
(se não conseguir visualizar o filme clique aqui)

Sia - Chandelier, with Maddie Ziegler & Allsion Holker on Dancing With The Stars
Publicado a 23 de setembro, 2014
Visualizações: 10.112.982
(se não conseguir visualizar o filme clique aqui)

Sia - Chandelier (Official Video)
Publicado a 6de maio, 2014
The official director's cut for the 4 time Grammy nominated hit "Chandelier" directed by Sia and Daniel Askill, featuring Maddie Ziegler.
Visualizações: 466.010.530
(se não conseguir visualizar o filme clique aqui)

Sia - Elastic Heart feat. Shia LaBeouf & Maddie Ziegler (Official Video)
Publicado a 7 de janeiro, 2015
The official video for "Elastic Heart" directed by Sia and Daniel Askill, featuring Shia LaBeouf and Maddie Ziegler. choreographed by Ryan Heffington.
Visualizações: 61.091.952
(se não conseguir visualizar o filme clique aqui)

Sia - Elastic Heart (Live on SNL)
Publicado a 18 de janeiro, 2015
Music video by Sia performing Elastic Heart (Live on SNL). (C) 2015 Monkey Puzzle Records, under exclusive license to RCA Records
(se não conseguir visualizar o filme clique aqui)

Sia Performs Elastic Heart
Publicado a 4 de julho, 2014
Jimmy Kimmel Live
(se não conseguir visualizar o filme clique aqui).  


Capa do disco em que se vê a peruca, destacando-se do fundo negro, e que é a imagem de marca das performances da cantora-artista




segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O fantasma e outras artes (Ensaio Intersemiótico)


As diversas naturezas na arte comunicam entre si. É necessária uma intersemiótica capaz de descrever dois sistemas diferentes, mantendo uma “linguagem” comum aos sistemas em estudo. Álvaro Manuel Machado e Daniel Henri-Pageaux consideram que «a Literatura Comparada é uma orientação metodológica interdisciplinar» , numa confluência comparativista entre os conhecimentos sobre o fenómeno literário e o fenómeno cultura (a literatura comparada).

A relação da literatura e as outras artes (como a pintura, a escultura, a música, a fotografia, o cinema, a ilustração, a banda desenhada, a arquitectura ou a dança), e destas com a literatura, é uma constante ao longo do tempo e da História: escultura e literatura (Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke) ou literatura e música (Thomas Man e Wilhelm Richard), por exemplo. É comum vermos, lermos ou ouvirmos obras que nos remetem para outras artes e é igualmente interessante constatar como os artistas utilizaram ou utilizam as mais diversas técnicas para fazer transmitir a sua mensagem.

“O Fantasma da Ópera” será um perfeito exemplo de (mais do que de influência) uma “osmose”  entre as artes. Na imortal obra literária, escrita em 1910 pelo francês Gaston Leroux (1868-1927), o autor conjuga a sua imaginação a alguns factos reais, como o existente lago subterrâneo da Ópera de Paris (actualmente chamada Ópera Garnier ou Palais Garnier), depois de uma visita ao labiríntico local (onde se terá perdido) ou como o episódio da queda do enorme lustre sobre uma lotação esgotada (“acidente” aparentemente causado por um militante anarquista que terá colocado uma bomba no lustre). Curiosamente, (o tempo e a “maturidade” - ou devo dizer reconhecimento - do público tem destas coisas) a obra não foi um sucesso imediato, mas terá aos poucos conquistado o seu lugar merecido de obra-prima. Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle, Stendhal, Alexandre Dumas e Vitor Hugo (e até a sua carreira como jornalista) terão influenciado a escrita de Leroux.

Gaston Leroux - Le Fantôme de l'Opéra.jpg
Edição francesa de 1920

Apesar de ser mundialmente (re)conhecido pelas suas músicas, a primeira versão cinematográfica de “O Fantasma da Ópera” foi um filme mudo (e em preto e branco) de 1925, saído dos estúdios da Universal (Estados Unidos da América), produção na qual Leroux esteve envolvido. Em 1943 Arthur Lubin faz a sua própria adaptação, já a cores, com milhares de cantores e um orçamento bem mais generoso. Outras versões no cinema se têm seguido, nas quais os seus realizadores (como Brian De Palma ou Joel Schumaker – com o qual o filme esteve nomeado para três categorias nos Óscares© da Academia) deram mais ou menos destaque ao carácter humano, ao terror, à tragédia ou ao romance do enredo.

Poster do filme, 1925

Mas é no teatro musical que a obra de Leroux é reconhecida. A peça (de grande sucesso) é trazida ao palco (mais precisamente do The Duke’s Playhouse, em Lancaster, Inglaterra) pela primeira vez em 1976 pelo encenador e dramaturgo britânico Ken Hill (1937-1995).

É difícil dissociar “O Fantasma da Ópera” do género musical. Igualmente interessante é constatar que Hill conseguiu enriquecer a sua interpretação contemporânea através da adaptação de obras de compositores como Jacques Offenbach (“Jamais, foi de Cicerone", de La Vie Parisienne), Charles Gounod ("Maudites soyez-vous", de Fausto), Giuseppe Verdi  ("O inferno! Amelia qui!", de Simon Boccanegra), Arrigo Boito ("Son lo spirito che nega", de Mefistofeles), Antonín Dvorák (“Mesicku na nebi hlubokém", de Rusalka), Georges Bizet ("Je crois entendre encore", de Les Pêcheurs de Perles), Carl Maria von Weber ("Du weißt daß, meine Frist", de Der Freischütz), entre outros.

Uma década depois é a vez do premiado compositor e produtor britânico Andrew Lloyd Webber fazer a sua própria adaptação musical, que estreia no West End de Londres. Desde então tem corrido o mundo, mantém-se ainda em cena no Her Majesty’s Theatre, em Londres (onde se estreou e onde assisti em 2004) e é considerada a mais bem sucedida peça de entertenimento de todos os tempos. Por muitos outros séculos outros tantos artistas serão influenciados por esta (e tantas outras) obras artísticas.

The Phantom of the Opera (Broadway) January 26, 1988 Book by Richard Stilgoe & Andrew Lloyd Webber, Music by Andrew Lloyd Webber, Lyrics by Charles Hart, Directed by Harold Prince Shown: Michael Crawford (as The Phantom of the Opera), Sarah Brightman (as Christine Daae`) This is a PR photo. WENN does not claim any Copyright or License in the attached material. Fees charged by WENN are for WENN's services only, and do not, nor are they intended to, convey to the user any ownership of Copyright or License in the material. By publishing this material, the user expressly agrees to indemnify and to hold WENN harmless from any claims, demands, or causes of action arising out of or connected in any way with user's publication of the material. Supplied by WENN.com
Michael Crawford (como Erik, o Fantasma), Sarah Brightman (como Christine Daae`) em The Phantom of the Opera (Broadway) 26 de janeiro, 1988, Libreto de Richard Stilgoe & Andrew Lloyd Webber, Música de Andrew Lloyd Webber, Letra de Charles Hart, Encenação de Harold Prince Shown

«A multiplicidade de sistemas autónomos de criação e comunicação, sensoriais e linguísticos, não deve ser fechada em si mesma [...]» - André-Michel Rousseau. 
______________________________________
REFERÊNCIAS BIBLIO E WEBGRÁFICAS

  MACHADO, Álvaro Manuel e PAGEAUX, Daniel-Henri (1988) - Da literatura comparada à teoria da literatura, Lisboa, Edições 70;
  PAGEAUX, Daniel-Henri (1994) – Littérature et Arts, Paris, Armand Colin Éditeur;
  ROUSSEAU, André-Michel (1977) - Artes e Literaturas: um “estado presente” e algumas reflexões, Synthesis;

Ópera de Paris: www.operadeparis.fr  |  http://oficinadeteatro.com/artigos/materias-especiais/90-opera-garnier-o-espirito-de-paris  |  http://pt.wikipedia.org/wiki/Opera_Garnier;
“O Fantasma da Ópera” na Literatura: Gaston Leroux - www.gaston-leroux.net;
“O Fantasma da Ópera” no Teatro: www.kenhillsphantomoftheopera.co.uk | http://www.thephantomoftheopera.com;
“O Fantasma da Ópera” no Cinema: http://homevideo.universalstudios.com/monsters/phantom.html.

........
Primeira imagem: Fotograma do filme O Fantasma da ÓperaUniversal Pictures, 1925. Direção de Rupert Julian.  Com Lon Chaney  (como Erik, o Fantasma), Mary Philbin (como Christine Daae`)



terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ena pá, 2014! 30 a nus de carreira


No ano em que a banda de rock portuguesa (claro) Ena Pá 2000 comemora 30 anos de carreira, eu quero comemorar um álbum És muita linda que faz 20. Em 1994 o cd marcaria um período inesquecível da minha vida e, presumo, o de muitos dos atuais trintões e quarentões portugueses. É por muitos considerado o mais popular da banda, conhecida pelas letras carregadas de humor brejeiro e pornográfico. Logo, polémico, como a banda gosta de ser. É o que se podia esperar de um grupo cujos elementos têm alcunhas como Francis Ferrugem/ Rei ou Ray Bonga (o percurssionista Francisco Ferro, rei das Congas), Zé Líquido Rato (o baterista Luís Desirat), Pepe Mijo/ Pepito Furex (Pedro Rijo, nome verdadeiro), Manuel Anão/ Escaravelho da Foz do Arelho (o Baixo Manuel Duarte), Juanito Porkys Del Mar/ Joni Pórkinho/ Pão Diospiro (o guitarra João Santos) ou Lello Marmelo/ Orgasmo Carlos, líder e vocalista-artista-ativista-político Manuel João Vieira, que mantém a irreverência e polémica, mesmo a solo, na vida (ir)real.

O cd foi-me oferecido pela minha namorada da altura. Nunca os esqueci: nem a ela nem ao cd, que de quando em vez insiro na grafonola digital para recordar as músicas. 

- Isso é lá coisa que uma miúda compre e ofereça ao namorado?  - podem alguns pensar, admirados.

A admiração, contudo, não deve ser essa (nem outra que o meu estimado leitor possa vir a ter). Depois de ultrapassado o choque da também polémica capa do cd (que reproduzo abaixo, para quem não conhece, e acima, a ilustrar este post, mas com muito mais censura), começa o encanto do seu interior musical, que teve participações dos alentejaníssimos Vitorino e Janita Salomé, do Gimba, do João Paulo Feliciano e do Bernardo Sassetti. Ao longo das 20 faixas sucedem-se cacofonias de fazer corar um Quim Barreiros, ou qualquer outro cantor pimba que nem no século XXI se atreveria a reproduzir num dos seus espetáculos, muito menos numa daquelas exaustivas mas muito populares maratonas de programas de televisão de fim de semana. 

Os títulos dos temas vão dos mais simples e cândidos (só nos títulos) aos mais hard. Rock com uma pitada - ou muita pitada, pronto, admito - de XXX. Quanto baste para apimentar a coisa e sem outros pis castradores: aqui os coitus musicais só são interrompidos com as gargalhadas que inevitavelmente provocam aos que o ouvem com atenção. Segue a minha proposta/ guia para a audição de cada uma das faixas, uma tentativa para atenuar - castrar - as palavras e o sentido que no original poderão encontrar (qualquer pesquisa na net os encontram).  Aviso que os títulos não são de minha autoria e podem ferir os ouvidos menos liberais ou insensíveis.

1. Alice - O vocalista pede ao longo da música a uma senhora ou menina, que se chama Alice, que lhe lamba uma certa coisa, que nunca percebi exatamente o que é mas que rima com o seu nome. E recomenda-nos, a nós e a todos os que pensam acabar com a própria vida, a experimentar essa magia de amar que a Alice tem. Só sei que desde que ouvi este tema, nunca mais consegui encarar da mesma maneira alguém que se chamasse Alice. Fica no ouvido. Provavelmente há muito bom homem que ainda hoje procura por ela. 

2. Dona - Não sei se se refere à Dona Alice, da música anterior. Um arroto discreto abre o tema da senhora que ama quer analfabetos quer doutores. Um amor democrático, portanto, com um quintalinho acolhedor cor-de-rosa em botão, a mais linda flor de uma música em que não falta uma breve passagem pelas notas musicais que fazem lembrar um circo.

3. Vida de Cão - É uma espécie de diário de um homem a quem comparam com um canito, com direito a pulgas e tudo. Uma vida difícil que só os prazeres de uma meretriz, visitada religiosamente ao domingo, numa qualquer pensão, pode apaziguar. Tudo regado com um som rockalhado que acaba com os acordes da música "Quando o coração chora de amor" no momento em que o desafortunado homem protagonista é esmagado por um camião.

4. Nunca 1 - A balada do álbum que é uma declaração de amor carregada bolas de sabão e de sátira. O autor enamorado afirma que nunca deixará de sentir ponta por ela, de ter o seu zé levantado por ela, terminando o tema com um suspiro chorado. Provavelmente a história não fica por aqui.

5. LSD 25 - Não gosto particularmente deste tema. É sobre o que se vê ou sente quando se consome uma qualquer inebriante substância (tipo crocodilos de cristal, lulas verdes extravagantes, ovos de Aveiro, serpentinas ondulantes e outras cenas do género).

6. Nunca 2 - E a história não se ficou por ali. Repete-se neste tema, sobretudo o refrão. Distingue-o apenas as rotações ora lentas ou rápidas e um final riscado. Dos meus preferidos!

7. Semi-Tango - Neste tango entram a dançar várias personagens. Há um homem que tenta cortar uma vaca com uma faca torta. Há uma costureira e uma velhota que gostam de apanhar bebedeiras à meia noite numa... banheira (uma vez mais aqui o nonsense, apenas para rimar a palavra  com aquela profissão). Parece-me que são vizinhas do tal homem, a quem às tantas numa noite de chuva lhe apetece comer frango assado e a quem um coração cantante lhe faz ter instintos de estripador. Mas aquela vaca já estava morta. É nós dançamos, divertidos, este tango que é tão semi como senil.

8. Masturbação - Este canto é gregoriano e apresentado, com orgulho, por uma voz que bale. A letra é muito complicada: resume-se a um conselho para que se pratique este ato de auto-prazer para bem da nação. 

9. Bacamarte - Este é o tema mais vaidoso do álbum. O seu personagem gaba-se o tempo todo do tamanho do seu grande órgão genital, dedicando-lhe o título da música: bacamarte. Mas também lhe chama linguiça, pilinha (só para dizer que é tão grande que vai da costa à linha) e linguiça. Até onde vai a imaginação hard-core

10. Rap Alentejano - É nesta música que o Vitorino e o Janita cantam e fazem coro. O protagonista é o General Zé que se vem manifestar em rap por uma grandessíssima atitudi. Muuuuuita a-a-a-a-titudi.



11. Paneleiro - O início deste tema lembra-me um filme do Tarantino. Como noutros tema, o nonsense reina, com palavras colocadas apenas para rimar com o título e outros estereótipos associados aos homens que têm essa preferência sexual: gostam de chupar no gelado, têm um corpo musculado, assopram nas camisas (?), puxam o lustro aos para-brisas (??). Mas, sobretudo, são uma espécie muito limpa: tomam muitos duches no chuveiro (rima) e lavam muito bem a região pudibunda com... OMO. Por isso são Omossexuais! O filme está feito. Genial.


12. Marisco - O mais tropical e delicioso tema. Afinal, há muito pouca gente que não gosta de marisco, não é? Afirma o cantor que "Agorra nos práia di Porrtugal já não há marrisco igual àqueli di antigamenti". É preciso ter atenção porque a iguaria é boa mas pode causar intoxicação. A música também causa um bocadinho

13. Fim-De-Semana Em Vizela - Deve ter sido um fim de semana prolongado, com feriado pelo meio. É que não só foi passado em Vizela, como 'entram' o Fernando Mamede, a mulher do Vitor Espadinha, a filha da Teresa Braganza, a neta do Bispo de Beja, a secretária do Taveira, a tia-avó do Júlio Isidro, a criada do Salazar, o Macário Correia, a amiga do Santana Lopes, o major Valentim Loureiro e a sogra do Mário Soares. Isto é que foi um forrobodó, heim! Com muita rima à mistura.

14. Puta - Ela tem a profissão mais velha do planuta, o seu coração palputa pelas pedras da calçuta, faz com que o suor dele caia em cascuta e dá-lhe um nó na pixuta, pra ver se ele aprende. Lindo!

15. Fucking Time - Não gosto desta, por isso não a comento.

16. Carla Andreia - Outra música dedicada a outra moçoila. Aliás, quase todas andam à volta das fêmeas que inspiram a banda. A Carla Andreia, de olhos azuis, não é exceção. 

17. ABC Do Amor - Outra balada, outra volta no carrocel do amor e da beleza feminina que, uma vez mais, celebram a cantar. Tanto, que acabou por inspirar o nome do álbum. É que a chavala é mesmo buéda, buéda linda, fixe e maravilhosamente porreira, pá! O tema tem duas partes. A segunda tem mais batida.

18. Alcina - É claro que é assassina e senhora da sua vagina. Que outras palavras se conseguiam encontrar para rimar com o seu nome?

19. Perversa Adolescente - Embora pequena em estatura (anã de não mais de metro e meio) dá tanta pica que faz levantar a... pedra da calçada. Seus malandrecos! A segunda parte da música é mais infantil no tom: tem um ursinho que gostava de comer mel, até o ter enjoado, procurando, então, ajuda divina. Mudou os hábitos alimentares para o seu manjar. Oh, tãooooo querido!

20. A Titi Fez Um Tété - O popó que o papá deu, o teté que a titi fez com óleo Fula, o xixi que o bebé fez e o cocó que fez o avô. Não é bom brincar com as palavras? São uns brincalhões, estes gajos! 

***
Quanto a ser o mais popular álbum da banda, a Wikipédia nota que a afirmação carece de fontes. No entanto esta fonte (eu) confirma-o. De que mais fontes precisaria eu?


Crédito de imagens: capa do cd És Muita Linda, Ena Pá 2000 (1994); 
Les Bas Blancs (Mulher Com Meias Brancas), Gustave Courbet (c. 1861)


FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 

* * *


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Memórias #4 - Garrett: um nome de múltiplos significados


Garrett é um Almeida, escritor e dramaturgo, que criou uma das mais dramáticas cenas do teatro português (em Frei Luis de Sousa, 1843). Entre Almada e Lisboa, a ação conta com um Tejo pelo meio, meio mar que separa as duas margens e as tramas que na peça acontecem.

Garrett é uma embarcação que atravessa o Tejo... O mesmo rio que testemunha muitas outras histórias, igualmente dramáticas ou felizes. Eu sou feliz por sobre as suas águas poder inspirar-me e evadir-me em pensamentos. A maior parte deles esvaem-se assim que o barco atraca num dos cais. Alguns atraco-os a palavras com que vou escrevendo muitos dos meus textos. Como este, que por hoje ficou atracado no Cais do Sodré. E subo para o Camões.

Garrett é uma rua que atravessa a baixa lisboeta, que no dia 25 de agosto de 1988 testemunhou um incêndio que fez do Chiado um espetáculo de fogo e fumo, e que nesse dia todos os lisboetas quiseram e puderam testemunhar. Há precisamente 26 anos, da janela do quarto andar onde morávamos, perto da Calçada do Combro, também consegui assistir aos fumos que cobriam a cidade. Podia senti-lo como um prenúncio daquilo que era uma passagem dos tempos do Grandela para o atual tempo do centro comercial que acabou com a tradição das compras naquele mítico espaço comercial. Após demorados anos de reconstrução, os lisboetas puderam criar nova tradição de consumo naquela emblemática e movimentada zona. Nessa rua já não se compra leite.

Garrett foi uma leitaria do Chiado, que por sua vez inspirou o Vitorino. Muitas vezes em criança, quando ia para a escola, passava por ele que na esplanada da Taberna do Leão (frente à RDP, ao fundo da rua de São Marçal, em Lisboa) aguardava que a inspiração chegasse. Ou que a vida simplesmente passasse. De mim não passou a sua música que ainda guardo, com gosto, na memória:
No Chiado à tardinha, às vezes, Sorridentes vão de mão na mão, Bons rapazes, são bons portugueses Ai Madame a sua indigestão 
Ideal das empregaditas A finória vai um figurino Tão caraça, veste muitas chitas Diz olé! prò Montefiorino 
Leitaria Garrett dá cá o pé Ai tira a mão, João, Da coxa doce, Já está, antes não fosse... O Saricoté, foi parar à Marques Lá pràs Belas-Artes... 
Assim mesmo é que é! (Diz o progresso) Chá com torradas, João, Pra onde é que eu vou, Já fui, mas já não sou Linda mocidade, foi-se o Sol embora, Fica-me à Saudade... 
Leitaria Garrett (1984), de Vitorino
 Vitorino no Coliseu 1985 - Leitaria Garrett


* * *
DISPONÍVEL VERSÃO EM INGLÊS EM

http://mywittywit.blogspot.pt/

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Mussorgsky contou-me uma história


Foi em forma de música que o compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881) me contou hoje uma história, através da interpretação prodigiosa, ao piano, de Pedro Costa, um jovem pianista português, que nasceu em Macau, quase cem anos depois da morte do compositor. Sim, com a música também se podem construir narrativas, contada neste caso por dois homens separados por um século. O compositor do século XIX levou-me através dos Quadros de uma Exposição, uma peça que escreveu em 1874, depois de ter visitado uma exposição do amigo pintor e arquiteto Viktor Hartmann. São dez os locais mágicos, por onde sou guiado em passeio acústico-visual, juntando nesta suite as duas artes: música e pintura.

No início do passeio encontro gnomos e outros seres que só a imaginação de cada um consegue inventar, ajudado, sempre, pelo bater nas teclas do piano, que maravilhosamente criam sons. Regresso ao passeio e avisto um velho castelo medieval italiano ao longe. Quem viverá ali? Passeio nos pensamentos e encontro o jardim das tulherias e um carro de bois. Será que em cima dele, e por causa deste passeio, surge um ballet dos pintainhos nas cascas de ovo (na imagem) que os dois judeus (um rico e um pobre), Samuel Goldenberg e Scuyle, lá puseram? 

O ritmo repete-se, para que não me perca em passeio, e chego ao mercado de Limoges, onde me sugerem uma descida às catacumbas, com um sepulcro romano onde provavelmente jazem heróis. Não tento falar com os mortos em língua morta. Deixo as profundezas e regresso à cabana da feiticeira Baba-Yaga sobre patas de galinha, pé ante pé, tentando não fazer barulho. Mas o som estridente acorda de dentro do instrumento de cordas, pelas mãos enérgicas do concentrado Pedro. 

- Não lhes batas mais, peço eu.

Mas ele bate os pés e os dedos, ignora-me e com toda a pompa acaba por abrir a grande porta de Kiev
Ufa, até eu estou cansado.
Pensar que o pobre pianista esteve durante quase todo o passeio a escorregar do banco onde se sentava, tocando concentrado para não cair! E eu enganado, a julgar que era o Mussorgsky que lhe estava a dar trabalho. Estava, claro. Um trabalho que termina com a ovação de um público de quase cem pessoas (são suficientes, garanto), que o fazem regressar com os entusiásticos aplausos.
Que belo passeio pela História da música e pela narrativa de Mussorgsky.


Nota: os itálicos referem os nomes dos andamentos da suite - catorze, ao todo, contando com os passeios, que intercalam os quadros. A repetição da palavra é, portanto, propositada e quase parece uma figura de estilo.

Uma versão desta peça, de 33 minutos, com interpretação de Charles Finnegan, pode ser ouvida (e vista) em baixo.