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domingo, 21 de dezembro de 2014

Arte e(m) multimédia : O projecto Media Art Net


 GFP Bunny (2000), Eduardo Kac


Toda a arte (incluindo a arte multimédia ou digital) devia estar num museu
Reformulando a minha própria frase (anterior), diria antes que a Arte “está” num museu. Aliás, em milhões de “museus” por todo o mundo, numa “casa” que já “apropriámos” e a que se “chamou” internet. Isto porque, se procurarmos nos sítios certos (e por vezes, até através dos mais incertos), encontramos arte sobre todas as formas e feitios nesse maravilhoso “mundo” (ou universo?). A literatura, a música, o design, a escultura, o cinema, a fotografia e tantas outras formas de arte (incluindo os próprios museus) podem ser vistos e ouvidos (e sentidos) “online”!
"All media are extensions of some human faculty- psychic or physical […] the wheel is an extension of the foot, the book is an extension of the eye, clothing an extension of the skin, electric circuitry an extension of the central nervous system" (1)The Medium is The Message, Marshall McLuhan  
O projecto Media Art Net (que se pode aceder em www.mediaartnet.org) foi concebido por Dieter Daniels e Rudolf Frieling, com fundos do Ministério de Pesquisa e Educação da Alemanha, apoiado pelo Goethe-Institut e pelo Centro para a Arte e Média  , que tem como objectivos estabelecer: a) uma estrutura cibernáutica que oferece, gratuitamente, conteúdos altamente qualificados, numa variedade de tópicos relacionados com os média e a arte; b) teorica e audio-visualmente formas convincentes de relações e referências que atravessam os limites do género.

Este meio, só por si, é já a mensagem que eu pretendo transmitir (pegando nas visionárias palavras de Marshall McLuhan). Quem visita o “sítio” deste projecto, pode aceder aos assuntos através de diferentes abordagens: pelos sumários visuais (explorando), pelo índice ou pelo motor de busca (pesquisa específica). Reúne informação deveras interessante, quer pelo seu aspecto científico e histórico, quer pela sua perspectiva artística, não se tratando de um meio que é, por si só, um objecto artístico (embora possamos reflectir sobre o web-design como uma inovadora forma de arte multimédia) – inúmeros exemplos deste género abundam na World Wide Web   - mas antes de um veículo para a informação artística. Num primeiro momento, podemos visitar as posições históricas e actuais, assim como os contextos da arte multimédia (uma espécie de “overview”).

Num segundo momento, podemos ir ao encontro dos oito tópicos temáticos :

1 | Estética do Digital
Os discursos e tendências que nos ajudam a entender as teorias estéticas, assim como a simbiose entre os pensamentos científico, artístico, sistémico e dos média;

2 | Relação entre Som e Imagem
Os movimentos vanguardistas do século XX e a relação entre as inovações tecnológicas e as novas formas de expressão artística;

3 | Corpos “Cyborg” 
As representações tecno-orgânicas e híbridas, os corpos sintéticos ou corpo-máquina;

4 | Foto/“Byte” - como a fotografia revolucionou a produção, a distribuição e a percepção das imagens, desde o analógico ao digital;

5 | Arte e Cinematografia 
Como o filme, chamado já de “velho” new media, é importante para entender os novos média e a arte multimédia;

6 | Mapeamento e Texto
Investigação a diferentes áreas e campos de interesse que “emergiram” entre a imagem e o texto;

7 | Ferramentas Geracionais
A software art – poderão as formas de arte ser geradas apenas de/pelo software?;

8 | Esfera_S Públicas 
A privacidade individual, espaço também de intervenção e crítica aberto à participação do público.

Curiosamente, todos estes tópicos formam uma visão sobre a «Obra de Arte Total» (a lembrar Wagner), uma espécie de “ópera” interactiva, onde as diversas linguagens artísticas, as diversas culturas (oral, visual e electrónica), de que falava McLuhan, se cruzam numa rede (net) sem rede (sem medo de cair no esquecimento porque faz parte já da história e da evolução do Homem e da Arte), que nos separa (fisicamente) e aproxima (virtualmente), como que uma “retribalização” na aldeia global que é esta nossa sociedade cada vez mais aberta. E, quase sem nos apercebermos, vivemos já num futuro. Temos, “apenas”, de estar atentos aos nossos sentidos e percepções.
"You see, Dad, Professor McLuhan says that the environment that man creates becomes his medium for defining his role in it. The invention of type created linear, or sequential thought, separating thought from action. Now, with TV and folk singing, thought and action are closer and social involvement is greater. We again live in a village. Get it?" (2) - The New Yorker Magazine 1966 - The Medium is the Massage
Eduardo Kac, «GFP Bunny», 2000


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(1)"Todos o media são extensões de alguma faculdade humana - física ou mental [...] a roda é uma extensão do pé, o livro é uma extensão do olho, a roupa uma extensão da pele, o circuito elétrico uma extensão do sistema nervoso central." O Media é a Mensagem, Marshall McLuhan  

(2) "Vês, pai, o Professor McLuhan diz que o ambiente que o homem cria torna-se o meio (media) para nele definir o seu papel. A invenção da tipografia criou um pensamento linear ou sequencial, separando o pensamento da ação. Agora, com a televisão e a música popular, o pensamento e a ação estão mais próximos e o envolvimento social é maior. Vivemos novamente numa aldeia. Entendeste?" - The New Yorker Magazine 1966 - The Medium is the Massage

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A obra de arte e a sua (des)construção


«Aquele que se concentra, diante de uma obra de arte, mergulha dentro dela.» - Walter Benjamim
Realidade Virtual (RV): prémio para o melhor oxímoro   
Um amigo enviou-me uma imagem de um cavalo, de Da  Vinci, que se passeia numa pintura de Turner. Pergunta: quem é o autor da “obra”? Turner, Da Vinci, o meu amigo... ou os três? Ao refletirmos sobre a identidade, a unicidade, a reprodutibilidade, e a facilidade (velocidade) com que os bits chegam até nós, imaginamos quantos elementos dessa imagem (picture elements, ou pixéis) se “perderam” pelo caminho. Não saberemos de que forma as interferências influenciaram a recepção. Nem devemos assumir, por mais precisa que seja essa “reconstrução”, que estamos perante o “objecto” original. Desde sempre as obras de arte foram reproduzidas, mas o hic et nunc e a aura (“alma”) do original perde-se, deixando-se “esvoaçar” pela cópia, assunto que W. Benjamim investigou pertinentemente (o exemplo do cinema.)



Da simulação ou imitação à estimulação
A arte, como foi conhecida durante séculos, está diferente. Há compradores das obras concebidas pelos robots de Leonel Moura, que diz “expandir as fronteiras do que se considera arte”. (Nunes) Somos seres que actualizam a forma como codificamos, transmitimos e recepcionamos a informação, modificando, até, o nosso modo de sentir e de perceber. A crise conceptual, que “ameaça” as formas de arte, que Lev Manovich refere em Post-media Aesthetics, terá origem na velocidade com que as novas formas artísticas se desenvolvem, a par com o desenvolvimento tecnológico. Será sinónimo de evolução cultural? A cultura actual é cada vez mais “interactiva, participativa, relacional e colectiva”. Mas essa “cultura de software” em que vivemos (Manovich), e as novas práticas de “fazer arte”, não substituem as da arte moderna.

Negroponte profetizava  que “ser digital é a opção de ser independente de normas limitativas.” (Negroponte:51) Teremos já entrado na (necessária) fase que Peter Weable  chama de  “estimulação”? Os processadores computacionais evoluíram, os objectos digitais parecem “menos pixelizados”-mais reais?- mas substituirão a experiência “ao vivo” que uma obra de arte proporciona.

Eu não quero que os meus átomos se virtualizem, nem apertar a mão a um robot! Terá o futuro já começado? (…) ‘Cause we are living in a conceptual world, and I am a digital boy.
«A Realidade Virtual pode tornar o artificial tanto ou mais realista que o real.” - Nicholas Negroponte
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REFERÊNCIAS BIBLIO E WEBGRÁFICAS

BARRELA, Nuno, FIRMINO, Joaquim e ALMEIDA, Vitor (2006) – Hipertexto e Hipermédia, in Concepção de Materiais Multimédia. Lisboa. Ed. Faculdade de Educação e Psicologia – Universidade Católica Portuguesa (excertos disponibilizados pelo docente da UC de Artes e Multimédia in http://www.moodle.univ-ab.pt/moodle/file.php/5460/Actividades_09/04/HIPERTEXTO_E_HIPERMEDIA.pdf ).
BENJAMIM, Walter (1936) – A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. Tradução de José Lino Grünnewald do original alemão: "Das Kunstwerk im Zeitalter seiner techniscen Reproduzierbarkeit", em Illuminationen, Frankfurt am Main, 1961, Surkhamp Verlag, pp. 148-184. (publicada na obra A Idéia do Cinema, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, pp. 55-95, disponível em http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/
frankfurt/benjamin/benjamin_06.htm).
MANOVICH, Lev – Post-media Aesthetic. (Fonte: www.manovich.net/IA/index.html, acessado em 8/Abr./2006 e disponibilizado pelo docente da UC de Artes e Multimédia in http://www.moodle.univab.pt/moodle/file.php/5460/
Actividades_09/03/Post_media_aesthetics1.pdf).
MANOVICH, Lev (2008) - Software takes command, versão digital (link em www.manovich.net - http://lab.softwarestudies.com/2008/11/softbook.html).
NEGROPONTE, Nicholas (1995) - Ser Digital. Tradução de Francisco Silva. Lisboa. Editorial Caminho.
NUNES, Maria Leonor (2010) - Dossier A invenção do futuro. Jornal de Letras, Ano XXX, número 1031.
PACKER, Randall - Just What Is Multimedia, Anyway? Universidade da Califórnia, Berkeley (IEEEXplore – Digital Library in http://ieeexplore.ieee.org/stamp/stamp.jsp?arnumber=00752965 ).

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Desliga o teu ecrã



Almoço de domingo.
Família reunida. Como é verão e a altura é de férias, encontram-se ainda mais pessoas à mesa, entre primos e tios, pais e mães, irmãos, cunhados e enamorados. A temperatura é convidativa ao grelhado e a mesa é posta no quintal. As conversas são como se querem, banais, e cruzam-se, como é habitual e normal quando há tanta gente a querer contar a sua história ou a sua anedota. Alguns episódios interessam, outros nem por isso. Uns interessam-se por eles, outros fingem interessar-se. Faz parte.

O ritual de comer termina mas não o almoço. Esse prolonga-se. Sem se dar por isso, na mesa já só há migalhas e alguns pedaços de pão. Os copos ficam porque com o calor a sede, ao contrário da fome, vem e vai mais vezes. As conversas continuam a interessar uns e a embalar outros, que entretanto já cochilam, de barriguinha cheia e a moleza que a costuma acompanhar.

À parte, um dos elementos da família não se interessa nem finge interessar-se pela conversa e agarra no seu apêndice. Leia-se telemóvel. À parte, embora no mesmo grupo. Apêndice, daqueles órgãos que fazem parte de todo o ser humano, mas sem o qual se pode viver bem. Descobriu-se recentemente que afinal tem uma função e utilidade no nosso corpo. Como o telemóvel. Não é vital, mas precisamos dele para viver. Ou disso a sociedade de informação e telecomunicação nos convenceu. Este hábito é já um vício que aflige muita gente e já há especialistas a tratar dele. Já me debrucei, ligeiramente, sobre ele num post anterior.

Agarrado ao apêndice aquele membro da família desconecta-se das relações humanas que ali estão, ao vivo, para se conectar a outras redes ou simplesmente para alimentar mais um viciante jogo digital. O cúmulo é tirar uma selfies com as cabecinhas da família toda e os restos de comida em segundo plano para se dizer numa qualquer rede social que se está a sociabilizar. Não está nada. Está-se a ignorar os outros, está-se a marginalizar da interação pessoal.

Atenção: nada contra a tecnologia nem a rede que se diz social. Ela consegue sê-lo, quando é partilha, mais do que objetivo. Quando consegue ser um ponto de partida numa qualquer conversa. Quando despoleta concórdias ou discórdias, sorrisos, amizades, causas... Não quando promove a alienação do mundo. Por mais interessante que o outro, o das apps-maravilha, seja. É preferível não estar de corpo, do que deixá-lo sem alma à mesa. Ah, e podia pensar-se que o tal membro da família seria uma criança ou um adolescente. É legítima a presunção, ainda que não desculpe o gesto, como muitas vezes já vi em almoços ou jantares de família em restaurantes.

Os números ‘dizem’ que 3,5 mil milhões de peças e conteúdos são colocados nessa rede social pelos utilizadores a cada semana, que estão ativos no Twitter 100 milhões de utilizadores e que a Google recorre a 900 mil servidores para responder à carga necessária para os seus serviços. Ou que na União Europeia 77% dos jovens têm perfil em redes sociais e que 44% das crianças dizem não saber alterar os parâmetros de privacidade nessas páginas. Os números mostram, ainda, e particularmente em Portugal, que 38% dos jovens, com idades entre os 9 e os 12 anos, e que 78% com idades entre os 13 e os16 anos, estão presentes nessa redes.

Os números não mentem.
Eles mostram, por exemplo, o aumento de literacia informática, ao mesmo tempo que diminui a preocupação com a segurança na disponibilização de dados pessoais na rede global.
Os números dizem muito. Mas dirão tudo? 

Eu não me lembro de, quando era criança ou adolescente, alguma vez levar para a mesa de jantar (dentro ou fora de casa) o gameboy, o (viciante) jogo do tetris, o coco-crash entre outros jogos legendários ou qualquer outro jogo solitário. Seria hipócrita se não admitisse que, como milhões de famílias em todo o mundo incluindo em Portugal, eu não tenha passado - ou ainda passe - a sagrada hora da refeição a ver televisão. Um hábito adquirido que tento contrariar. Juro. Mas compreendo que é difícil cortar com ele quando à nossa volta há outras forças que o impedem. Por forças entenda-se pessoas. Crianças incluídas.

O tal membro da família que referi não é uma criança ou um adolescente, mas um adulto, a quem apetece fazer como o personagem da série animada American Dad, do grafitty que fotografei um dia destes quando descia a Calçada da Glória, em Lisboa: desligar-lhe o ecrã.


Na Internet a cada minuto
  • 20.000 novos comentários no Tumblr,
  • 6.600 novas fotografias no Flickr, 
  • 98.000 tweets (e 320 novas contas no Twitter e 100 no LinkedIn), 
  • 600 novos vídeos no YouTube, 
  • baixadas 13.000 aplicações para o iPhone, 
  • registados 70 domínios na Internet, 
  • enviados 168 milhões de e-mails, 
  • feitas quase 700 mil procuras, 
  • atualizados 695.000 estados no Facebook, 
  • ocorrem 11 milhões de conversações nos instant messengers, são efetuados 370.000 minutos de chamadas de voz através do Skype,
  • são ouvidas 13.000 horas de música (em streamming) no Pandora,
  • são vendidos 710 computadores (dos quais 232 são infetados com vírus eletrónicos), 81 iPads, 925 iPhones, 103 BlackBerry, 11 Xbox, 18 Kindle Fire, 2.500 cartuchos de impressão, 
  • são cultivados quase 4 milhões e meio metros quadrados de ‘terra’ no FarmVille, que ajudam a gerar algumas das 38 toneladas de e-lixo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O xixi do Hitler e a geladeira da Madonna


O passado fim de semana vi o filme Sacanas sem lei (Inglorious basterds, 2009), sem querer. Que é como quem diz, ao fazer zapping, tentando fugir a todos os aliciamentos para ligar para um qualquer 760 qualquer coisa para ganhar uma arca frigorífica, entre outros pequenos eletrodomésticos (mas onde é que raio é que eu ia colocar uma arca frigorífica?). Neste filme, Tarantino puxa, mais uma vez, da sua imaginação perversa, para trazer à ficção cinematográfica um final cruel, mas merecido, à vida de Hitler, o homem que encabeçou uma das maiores chacinas da História da humanidade do século XX, causando milhares de mortes.
Aqui os bastardos são os sacanas que sem lei mas com glória arquitetam um engenhoso plano para, também numa sala de cinema - daquelas que fazem perder a cabeça de qualquer cinéfilo, por tão bela que é - assarem vivo o sádico homem e toda a sua trupe. Vingança pura, na mesma moeda. Ou quase.
filme fez-me lembrar aquela pergunta que a minha mãe fazia quando era pequena: será que as pessoas ricas também fazem cocó e xixi? (Pronto, já usei a palavra malcheirosa no meu blog. Posso dormir descansado.) 

Isso a propósito da curiosidade sobre os hábitos fisiológicos de Hitler. Ou de outro ditador qualquer. Nem a propósito, no mesmo dia em que dou comigo a refletir levemente sobre isto (não, não foi no wc), a Madonna partilha no Facebook uma fotografia da filha mais nova na praia. Uma cena normal: a criança a posar, feliz, a ponta de um chapéu de sol azul e outra parafernália habitual de praia. Mas o que me chamou a atenção nessa cena fotográfica foi o que me pareceu ser uma geladeira, em segundo plano, por baixo do que parecem ser algumas peças de roupa. Provavelmente não é uma geladeira. Mas podia ser. Afinal, os ricos também levam para a praia as mesmas utilidades do que os não tão ricos. A cena podia passar-se na Fonte-da-Telha (uma praia da Costa da Caparica, para quem não conhece). A 'única' diferença é que ela é a multimilionária rainha da música pop (get over it, fãs de Aguilleras, Spears, Katys, Gagas e Mileys). Agora a pergunta que realmente interessa: o que é que leva a Madonna na geladeira, quando vai para a praia?
(Já estou a imaginar outras perguntas sobre quem é que já levou a 'geladeira' da Madonna. Mas... Hei, ela fez por isso.)
Por me fazer pensar em tudo isto, Tarantino foi um bastardo glorioso.