sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A caridade que (não) é um radiador enferrujado


O Guardian 'virou a mesa' deste Natal, a época em que a caridade(zinha) abunda, e mostra 11 das melhores paródias a campanhas de ajuda. Eu escolhi uma, apenas, a da Save Africa, que ganhou um Rusty Radiator Award e que me fez rir do princípio ao fim. Mas podem ver as restantes aqui. Por exemplo: Apesar de os noruegueses terem sido considerados as pessoas mais felizes do mundo, precisam de ajuda no que toca a calor. Aí entra o povo africano, que tem muito calor no coração, para dar e vender. Ou oferecer.

Podem ver o vídeo dessa campanha mais abaixo. Não é um gozo, mas uma paródia, que não deixa de apelar à nossa sensibilização para os problemas humanitários do mundo. Podemos doar, sempre que quisermos ou pudermos, durante todo o ano. Sem estereótipos!
«Errar é humano, tropeçar é comum. Ser capaz de rir de si mesmo é maturidade...»
Bárbara Coré
«Quem sabe rir de si mesmo se diverte muito mais.»
Saint-Simon
 
«Feliz é aquele que pode rir de si mesmo. Ele nunca deixa de se divertir.»
Habib Bourguiba
 
«Nem todo o momento é possível rir de si mesmo, mesmo assim rir de si mesmo produz um sono melhor.»
PríncipeThi
Um dia vou ver quem são estas pessoas que citei. Hoje é o dia de rir. Que sejam todos os dias. :)


((Caso não consiga visualizar o vídeo, clique no link http://youtu.be/xbqA6o8_WC0 ))

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Belo e Beleza : Platão vs. Plotino


Wang Du, Galerie Laurent Godin, Paris, 2005.

Para Platão (c. 427 a.c – c. 347 a.c) o que não for Verdadeiro, não é Belo e, por isso, não representa a arte. Considera mesmo que a arte é uma espécie de loucura divina, comparando-a à religião e ao amor (Rosana Madjarof). O amor é, aliás, o “responsável” pelos feitos mais belos, e amar o mesmo que o supremo Bem. A beleza está no domínio do sensível. No entanto a estética de Platão é evolutiva e é, por isso, natural que nos últimos textos apresente pontos de vista divergentes com outros anteriores. O resultado dessa “evolução” hierarquiza a beleza em três tipos: no Hípias Maior, a beleza do corpo pertence à beleza inferior (junto a qualidades inferiores como a saúde, força e riqueza); no Fedro (sobretudo), a beleza das almas, manifestando-se a beleza verdadeira; e a beleza em si, para os sábios.
No Banquete Platão estabelece, definitivamente, estes três níveis, expondo o caminho do Amor em direcção à Beleza. Para ele o amor é o desejo do próprio amor, é o desejo pelo que se não tem, para um Amor Absoluto e incondicional. Embora amar o Amor não seja belo, através do amor podemos perceber a beleza Ideal, absoluta, eterna e infinita (divina).

Filosofia “anti-arte”
Na filosofia platónica o percurso para a verdade é prejudicado pelo erro “cometido” pelo mimetismo ou imitação que a arte faz (Panofsky): 
é do “Belo-em-si” que precisamos de nos aproximar o mais possível, embora admita ser intangível, não estando ao nível da vida, do mundo terrestre. 
Através da imitação não se pode alcançar o mundo das Ideias – o mundo que importa, verdadeiramente, conhecer. Para Platão, a realidade não é mais do que uma cópia imperfeita (Bayer); o falso, ilusório, a retórica ou o trompe l’oeil não são dignos de serem qualificados como objectos de arte. Desta forma a pintura, embora seja considerada obra de arte, é “perigosa” porque prejudica o “caminho na direcção da verdade”, é uma “ilusão fictícia” da realidade, “enganando-nos com as suas formas e cores” (Huisman). Platão faz a distinção das artes que considera verdadeiras: arquitectura, escultura, teatro, pela harmonia, simplicidade e pureza que podem transmitir. 

A influência de Platão
Segundo Huisman, o platonismo exerceu uma influência tremenda sobre os seus sucessores “pensadores” e filósofos. Aliás, a sua influência no epicurismo é incontestável, embora exista uma diferença considerável entre o sentido das Ideias e o jogo da imaginação nos Epicuristas, para quem o bem é o prazer e o mal a dor (Bayer). Nos séculos seguintes notar-se-á, também, essa influência, quer na Idade Média, no Renascimento ou até no século XVII (Huisman).

«A beleza reside essencialmente nas almas.» - Platão
Plotino (205 – 270) é considerado o fundador da escola neoplatónica. A expressão neoplatonismo serve para diferenciar a sua filosofia da de Platão (Jayme Paviani). A sua estética é inspirada na de Platão, embora ao espírito dialético deste se oponha o seu espirito místico (a primeira forma da filosofia mística). O seu “compromisso com a beleza” renova, de certa forma, o conceito de Arte”.
Encontra-se em Plotino uma teoria da medida e da proporção, a que junta uma teoria da pureza e do branco, assim como uma teoria do brilho e da beleza imaterial (de Platão), mas o plotinismo ultrapassa-a para o ilimitado, “sem medida”. Essa visão é clara nos seus três grandes tratados estéticos (Bayer):

Do belo – no qual, como ponto de partida, toma o ponto de vista de Platão: a beleza da vista e do ouvido; depois a beleza intelectual das ocupações, das acções, das ciências e das virtudes. «O belo encontra-se sobretudo na vista; está também no ouvido, na combinação das palavras na música de toda a espécie; porque as melodias e os ritmos são belos; lá também, subindo das sensações para um domínio superior; ocupações, acções, maneiras de ser belas; há a beleza das ciências e das virtudes.», numa clara referência mística.

Da beleza inteligível: o belo é o laço das Ideias. A profunda ligação entre o eu e o real. O processo de purificação para alcançar esta visão é o que se pode chamar o misticismo de Plotino: uma contemplação às cegas, uma visão virada para dentro e sem ligação com o exterior. A expressão “máxima”, com “inspiração superior”, não através da cópia (a que se opõe) mas através do encontro de si próprio como artista (“criador”), uno com a natureza. “O bem é o belo agido. O belo é o bem contemplado.”

Do bem: Enquanto a realidade para Platão não era mais do que uma cópia imperfeita, Plotino reduziu o universo à visão porque toda a natureza não é mais do que uma visão imperfeita. Esse iluminismo contradiz a dialética de Platão e revela, pela primeira vez, a beleza do bem, suprema, divina, numa concepção mística do universo. E sobre a beleza do informe diz: “(...) Não podemos apreender nem a figura, nem a forma (...O O amor que por ele temos é sem medida (...) é uma beleza acima da beleza”.
«As artes não se limitam à imitação pura e simples daquilo que passa diante do nosso olhar.» - Plotino
______________________________________
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABBAGNANO, Nicola – História da Filosofia vol. I (Editorial Presença, 1985);
BAYER, Raymond – História da Estética (Editorial Estampa Lisboa, 1979);
GONÇALVES, Carla Alexandra - Estética e Teoria Da Arte – Sobre O Mundo e o Entendimento das Obras de Arte - e-book (Universidade Aberta, 2008);
HUISMAN, Denis – A Estética (Edições 70, 1984);
READ, Herbert – A Educação pela Arte (Edições 70, 1982); 
MADJAROF, Rosana – in http://www.mundodosfilosofos.com.br/platao2.htm;
PAVIANI, Jayme – Filosofia e Método em Platão (edipucrs, 2001);
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - O Neoplatonismo: Plotino - http://www.pucsp.br/~filopuc/verbete/plotino.htm;


domingo, 14 de dezembro de 2014

Kalocagatia para Sócrates

Ballerina on a string, Banksy

O conceito de Beleza poder-se-ia, em Sócrates, definir em apenas uma palavra: kalocagatia. Não fosse o grande filósofo um homem, não de grandes palavras escritas mas ditas, não seria preciso dizer (ou escrever) mais nada. Nascido de mãe parteira e pai artista (escultor), é, no mínimo, curioso como conseguiu, com a sua tão irónica (e conhecida) frase «só sei que nada sei», transmitir tantos ensinamentos e dar “à luz” um processo que, através do diálogo, levava o seu interlocutor «a descobrir por si próprio a falsidade do seu ponto de vista e a exactidão do de Sócrates» (Legrand:250). A esta arte foi dado o nome de maiêutica, precisamente em referência ao ofício de sua mãe.

Atenas “gerou”, no ano de 470 a.c., o homem que viria a “revolucionar” (renovar ?) o pensamento filosófico - afinal, “combateu” o sofismo da época  (Cordon e Martinez:59): ao contrário dos sofistas, defendia a «universalidade dos conceitos», porque tinha uma «grande vontade de mudar a sua sociedade» (Gonçalves:80)  – e a influenciar os vindouros.  Como se de uma “restauração” da linguagem dos homens (idem:81) se tratasse, ou seja, de um re-arranjar da forma como estes se organizavam, de acordo com o valor universal da unidade no entendimento em sociedade. Esse valor devia ser comum à comunidade e só assim se podiam entender os conceitos de Belo e Feio.
Porque essa educação dos homens não é feita, absolutamente, de forma linear, não se pode utilizar apenas uma palavra para entender, então, o conceito de Beleza para Sócrates. Se, ainda assim, quisermos defini-la de forma simples, podemos dizer que será uma junção «do belo com o agradável, o bom e o útil» , associada à Moral e à Política.

No entanto foi necessário interrogar-se (a si, como a outros diversos interlocutores), sobre o “traço comum” entre as coisas belas mas tão diferentes, concluindo que a Beleza em si (kalon kath’auto) existe apenas se, com o Bem, estiver relacionada ao kromenon, isto é, ao «conveniente, útil» (Bayer:34). Neste sentido, se uma coisa feia for útil, é, igualmente, bela.
A sua estética é utilitária, cuja Beleza deve atingir a perfeição, a virtuosidade (virtú), através da sabedoria e da harmonia entre os os homens (a unidade, mencionada anteriormente). Embora na natureza não exista nada que não contenha imperfeições, deverão reunir-se as coisas belas que existem dispersas, numa espécie de “movimento” que passa da desordem ou do múltiplo para a ordem ou Uno. Esse “movimento” de procura é a própria aquisição de conhecimento que conduzirá à verdade.

A maiêutica e a kalocagatia são dois pontos essenciais da doutrina socrática. Pelo diálogo Sócrates faz com que o indivíduo se questione e entenda o seu valor interior (a sua alma ou psyché), de forma a que, na sociedade de que faz parte, através do seu conhecimento intelectual e moral (saber), dos seus sentidos, da contemplação, da actividade prática,  da estética e da bondade, se atinja ou se aproxime da verdadeira Beleza.

______________________________________________

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAYER, Raymond, História da Estética, Editorial Estampa, Lisboa, 1979;
CORDON, Juan Manuel Navarro e MARTINEZ, Tomas Calvo – História da Filosofia, vol.1, Edições 70, Lisboa,1989; 
FERREIRA, João Monge, definição de Kalocagatia, em http://republicacriativa.wordpress.com/rastos/;
GONÇALVES, Carla Alexandra - Estética e Teoria Da Arte – Sobre O Mundo e o Entendimento das Obras de Arte - e-book, Universidade Aberta, 2008;
LEGRAND, Gerard – Dicionário de Filosofia, Edições 70, Lisboa, 1991;



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A obra de arte e a sua (des)construção


«Aquele que se concentra, diante de uma obra de arte, mergulha dentro dela.» - Walter Benjamim
Realidade Virtual (RV): prémio para o melhor oxímoro   
Um amigo enviou-me uma imagem de um cavalo, de Da  Vinci, que se passeia numa pintura de Turner. Pergunta: quem é o autor da “obra”? Turner, Da Vinci, o meu amigo... ou os três? Ao refletirmos sobre a identidade, a unicidade, a reprodutibilidade, e a facilidade (velocidade) com que os bits chegam até nós, imaginamos quantos elementos dessa imagem (picture elements, ou pixéis) se “perderam” pelo caminho. Não saberemos de que forma as interferências influenciaram a recepção. Nem devemos assumir, por mais precisa que seja essa “reconstrução”, que estamos perante o “objecto” original. Desde sempre as obras de arte foram reproduzidas, mas o hic et nunc e a aura (“alma”) do original perde-se, deixando-se “esvoaçar” pela cópia, assunto que W. Benjamim investigou pertinentemente (o exemplo do cinema.)



Da simulação ou imitação à estimulação
A arte, como foi conhecida durante séculos, está diferente. Há compradores das obras concebidas pelos robots de Leonel Moura, que diz “expandir as fronteiras do que se considera arte”. (Nunes) Somos seres que actualizam a forma como codificamos, transmitimos e recepcionamos a informação, modificando, até, o nosso modo de sentir e de perceber. A crise conceptual, que “ameaça” as formas de arte, que Lev Manovich refere em Post-media Aesthetics, terá origem na velocidade com que as novas formas artísticas se desenvolvem, a par com o desenvolvimento tecnológico. Será sinónimo de evolução cultural? A cultura actual é cada vez mais “interactiva, participativa, relacional e colectiva”. Mas essa “cultura de software” em que vivemos (Manovich), e as novas práticas de “fazer arte”, não substituem as da arte moderna.

Negroponte profetizava  que “ser digital é a opção de ser independente de normas limitativas.” (Negroponte:51) Teremos já entrado na (necessária) fase que Peter Weable  chama de  “estimulação”? Os processadores computacionais evoluíram, os objectos digitais parecem “menos pixelizados”-mais reais?- mas substituirão a experiência “ao vivo” que uma obra de arte proporciona.

Eu não quero que os meus átomos se virtualizem, nem apertar a mão a um robot! Terá o futuro já começado? (…) ‘Cause we are living in a conceptual world, and I am a digital boy.
«A Realidade Virtual pode tornar o artificial tanto ou mais realista que o real.” - Nicholas Negroponte
__________________________________

REFERÊNCIAS BIBLIO E WEBGRÁFICAS

BARRELA, Nuno, FIRMINO, Joaquim e ALMEIDA, Vitor (2006) – Hipertexto e Hipermédia, in Concepção de Materiais Multimédia. Lisboa. Ed. Faculdade de Educação e Psicologia – Universidade Católica Portuguesa (excertos disponibilizados pelo docente da UC de Artes e Multimédia in http://www.moodle.univ-ab.pt/moodle/file.php/5460/Actividades_09/04/HIPERTEXTO_E_HIPERMEDIA.pdf ).
BENJAMIM, Walter (1936) – A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. Tradução de José Lino Grünnewald do original alemão: "Das Kunstwerk im Zeitalter seiner techniscen Reproduzierbarkeit", em Illuminationen, Frankfurt am Main, 1961, Surkhamp Verlag, pp. 148-184. (publicada na obra A Idéia do Cinema, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, pp. 55-95, disponível em http://antivalor.vilabol.uol.com.br/textos/
frankfurt/benjamin/benjamin_06.htm).
MANOVICH, Lev – Post-media Aesthetic. (Fonte: www.manovich.net/IA/index.html, acessado em 8/Abr./2006 e disponibilizado pelo docente da UC de Artes e Multimédia in http://www.moodle.univab.pt/moodle/file.php/5460/
Actividades_09/03/Post_media_aesthetics1.pdf).
MANOVICH, Lev (2008) - Software takes command, versão digital (link em www.manovich.net - http://lab.softwarestudies.com/2008/11/softbook.html).
NEGROPONTE, Nicholas (1995) - Ser Digital. Tradução de Francisco Silva. Lisboa. Editorial Caminho.
NUNES, Maria Leonor (2010) - Dossier A invenção do futuro. Jornal de Letras, Ano XXX, número 1031.
PACKER, Randall - Just What Is Multimedia, Anyway? Universidade da Califórnia, Berkeley (IEEEXplore – Digital Library in http://ieeexplore.ieee.org/stamp/stamp.jsp?arnumber=00752965 ).

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

A margem do erro


Sabia que no mundo há mais de seis biliões ( seis mil milhões ) de pessoas que NÃO passam fome? Ou seja, a maior parte da população mundial. Espero que o leitor faça parte deste grande grupo, mas este texto é sobre a outra parte.

Os inquéritos ou sondagens que se levam com muita frequência a cabo pecam sempre por não conseguirem resultados cem porcento corretos. Para já porque se tratam frequentemente de amostras de uma determinada população. À exceção de um census, que se destina a toda a população que se quer analisar. No entanto, mesmo neste caso existe o erro que é o da subjetividade, no que às opiniões diz respeito, já que os dados sociográficos (como a idade, género, altura, largura e outras gorduras sociológicas) são mais absolutos. E até estes costumam mudar: cada vez estamos mais velhos ou queremos parecer ( e até ser ) mais novos, estamos mais magros ou gordos, vivemos aqui ou ali, e mesmo quando não vivemos aqui podemos estar a passar uns tempos acolá. Acontece o mesmo no género de uma pessoa, que já foi bem mais fixo do que é atualmente.

Embora seja uma ciência social, a análise dos resultados deste tipo de método quantitativo de estudo não deixa de dar uma ideia sobre determinado assunto. Os estatísticos - os senhores ou as senhoras  que analisam as estatísticas - tendem a acertar ao meio, nas médias, nas medianas, lembrando-me aquele texto, que quase em jeito de anedota conta:

"Um biólogo, um antropólogo e um estatístico foram à caça. O biólogo apontou para o alce e acertou meio metro à esquerda. O antropólogo fez pontaria e acertou meio metro à direita. Vem o estatístico que diz que o resultado da caça permitiu acertar em cheio."

É caricata, esta média, mas a alegoria não deixa de estar correta e aplica-se neste tipo de análises baseadas na quantidade de dados. É caso para dizer que se eu comer um frango e o leitor não comer nenhum, pode dizer-se que ambos comemos metade. É a média da gula e da fome.
Na época natalícia que se aproxima e onde já mergulham a maior parte das cidades, incluindo as cidades comerciais, aproxima-se a generosidade globalizada das pessoas e a sua atenção volta-se para o ato de dar a quem mais precisa. Um ato que não se condena nem nesta, nem nas restantes épocas do ano. Uma dessas campanhas de solidariedade é no combate à fome, precisamente.

Mas vamos a números. Sabe-se que no mundo há mais de seis biliões ( seis mil milhões ) de pessoas que NÃO passam fome. Ou seja, a maior parte da população mundial. É na margem deste erro que se  encontra o 'erro' que vai para além da estatística e se entra na humanização da questão. Ou desumanização, pois o outro lado dos números esconde, deixando bem à vista, 805 milhões de pessoas que não têm comida suficiente para levar uma vida ativa saudável. Isto corresponde a uma em cada nove pessoas no planeta Terra. Quem o diz é a World Food Programme (WFP), "a maior agência humanitária do mundo no combate à fome mundial", que informa:

Dois terços do total da população com fome mora na Ásia, enquanto em África uma em cada quatro pessoas está mal nutrida. Aliás, a má nutrição ainda é a causa de morte em quase metade ( 45% ) das crianças com menos de cinco anos. São mais de três milhões de crianças por ano! E são cerca de cem milhões aquelas abaixo do peso ideal, uma em cada seis. E se as mulheres das zonas rurais tivessem o mesmo acesso aos recursos quanto os homens, o número de pessoas com fome no mundo podia reduzir até 150 milhões. A WFP calcula que por ano são precisos 3,2 biliões de dólares ( americanos ) para chegar a todos os 66 milhões de crianças com fome, em idade escolar. 

Estes são, grosso modo, os números das estatísticas. O problema é que cada número é uma pessoa e uma vida. E para essas não pode haver margem para erro, já que significa ter ou não ter o que comer. Tudo o resto fica em perspetiva: as luzes, a abundância, o consumir desenfreadamente. Não me interpretem mal: nada tenho contra o espírito natalício, que chama a atenção para o calor, o humano, a luz, a alegria, a cor. Espero é que seja extensível a todo o ano, em todos os gestos que nos obriguem, sem obrigação - senão a moral -, de sermos mais generosos e, consequentemente, melhores seres humanos. E que não nos queixemos quando tivermos a barriguinha cheia.

Já agora, porque não ajudar com um gesto tão simples como jogar um pequeno quiz da WFP, para testar o seu QI da fome? Para cada pessoa que o fizer, será dada uma refeição a uma criança. Faça-o e partilhe:

http://quiz.wfp.org/

Resposta para o mail:
"You took the quiz - and fed a child!"
Ou então, para quem quiser ajudar e ao mesmo tempo assistir a um espetáculo de fado, pode aparecer no próximo domingo, dia 7, às 18h30, no Palácio Foz, no Cantar o Fado Contra a Fome. Vários fadistas e dois guitarristas participam solidariamente, juntamente com outras empresas, associações e instituições, para que este problema ( que ainda é um flagelo ) seja erradicado da face da terra.  O preço do bilhete é acessível ( de 5 a 25€ ) e aproveita para ouvir boa música, conhecer um espaço secular de requinte e brilho, enquanto contribui para um mundo melhor. É melhor assim.

( mais informações )

FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Mister Magister



Dedico este espaço, neste post, a todos aqueles que contribuíram para a realização da dissertação que levei a cabo no último ano, agradecendo-lhes sinceramente.

Para quem (ainda) não sabe, a dissertação que apresentei e defendi hoje, 28 de novembro de 2014, insere-se no ramo Cultura e Indústrias Criativas, e teve como foco os públicos da arte contemporânea, incidindo sobre aqueles da exposição Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda que decorreu de 23 de março a 25 de agosto de 2013, neste monumento. Brevemente vou partilhar alguns resultados, a todos a quem este assunto possa interessar.

A apoteose do meu percurso deu-se com a atribuição de Magister (latim para Mestre) em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE-IUL (Instituto Universitário de Lisboa), com a decisão unânime de aprovação pelos membros do júri (Professora Doutora Idalina Conde, arguente, Professora Doutora Joana Azevedo, presidente da mesa, e Professor Doutor José Soares Neves, orientador), que classificaram o meu trabalho com 18 valores, uma nota distinta que muito me agrada mas que não dá por concluído o meu caminho por estas andanças.

Para já...

UM AGRADECIMENTO PÚBLICO SINCERO 
Aos meus orientadores, que não me deixaram dispersar: ao Prof. Doutor José Soares Neves, pela forma como incansável e pacientemente me guiou para os melhores caminhos a seguir. A sua orientação nunca me pareceu uma obrigação; ao Prof. Dr. Jorge Vieira, que foi copiloto na viagem que teve início nas suas aulas de Desenho da Pesquisa, do Mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (MCCTI), e, portanto, por ser um dos seus principais responsáveis.

À Prof. Doutora Rita Espanha, Coordenadora do MCCTI, pelo apoio e abertura das portas necessárias para o início deste projeto.
Ao Dr. Rui Ferreira da Silva, Coordenador da Área de Bibliotecas e Documentação, da Divisão de Documentação, Comunicação e informática, da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), assim como ao seu colega, o Dr. Nuno Fradique, que me receberam e apoiaram na concretização deste projeto de investigação.
Ao Dr. José Alberto Ribeiro, Diretor do Palácio Nacional da Ajuda, pela autorização da aplicação do inquérito nesse Monumento, assim pela simpatia e convite para visitar a Exposição de Joana Vasconcelos, juntamente com os meus colaboradores.
À Drª. Tânia Tadeu, da Everything is New, pela permissão da aplicação do inquérito e pelos dados referentes à bilheteirada Exposição, assim como aos seus colaboradores, pela disponibilidade durante esse levantamento.

Ao António Gabriel, pela amizade e colaboração neste projeto, a quem devo a sua continuidade e conclusão, pela paciência e apoio em todas as horas, comigo partilhando e multiplicando as alegrias e dividindo angústias.
À Drª. Filomena Ramos, colega e amiga de um percurso académico no qual ativamente colaborou, nomeadamente na aplicação pontual do inquérito.
Aos meus pais, que incondicionalmente me apoiam, sempre na esperança de que o meu árduo trabalho e dedicação os frutos merecidos.

Aos professores do ISCTE-IUL, pela forma como lecionaram o MCCTI, pelos ensinamentos que me permitiram ter novos olhares para o mundo da cultura e das indústrias criativas.
Aos professores da licenciatura em Estudos Artísticos da Universidade Aberta, que enquanto ainda aluno desse curso, me incentivaram a dar continuidade ao meu percurso académico.
Aos meus colegas, família e amigos mais próximos, pela paciência e interesse com que me ouviram sobre o tema em estudo.
Ao público da exposição Joana Vasconcelos no Palácio Nacional da Ajuda, que teve a amabilidade e disponibilidadede responder ao inquérito, permitindo que eu pudesse realizar esta investigação.

Uma palavra final de agradecimento aos amigos e colega que fizeram questão de estar presentes no momento de defesa: Gabriel, Filomena, Ana e Hugo. Mas também a muitos outros que, não podendo estar presentes fisicamente, mostraram o seu apoio.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Nossa, que biolência



É impressionante a quantidade de programas de televisão cujo conteúdo se baseia ou é maioritariamente constituído por imagens de criminalidade, que na maior parte das vezes inclui violência. A violência nos canais de televisão é banal(izada) e muitas vezes gratuita, começando nos quatro canais generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI), e estendendo-se pelos canais por cabo. Uma breve passagem de olhos pela grelha de programação desses canais não deixa dúvidas para esta banalização a que a sociedade portuguesa tem facilmente acesso diariamente. Basta ligar a TV.
Observei uma semana desta programação e verifica-se. As observações que aqui deixo não são exaustivas nem analíticas, mas deixam muitas pistas sobre a banalização que refiro e deixo a pergunta: haverá relação entre a violência existente na televisão que temos com a realidade violenta que existe no mundo?

Apesar de tudo, nos canais generalistas da televisão portuguesa a maior parte da grelha não é ocupada com uma programação que particularmente inclua violência. Os casos pontuais verificam-se nas telenovelas e, sobretudo, nas notícias que dão conta de crimes - muitas vezes violentos, o que justifica ainda mais a sua inclusão no jornal, como notícia - ou no comentário demasiado breve de alguns crimes, feito nos programas diários durante a semana que ocupam a maior parte da manhã ou da tarde. Habitualmente esta análise é feita por especialistas minutos antes das notícias das 13:00. 
A violência também entra pelos ecrãs destes canais através dos filmes. Dos quatro, a RTP2 é aquele onde menos se encontram imagens deste teor (excetuando os noticiários diários mas de reduzida expressão em relação à restante programação deste canal). 

Não distingui os períodos de fim de semana com o resto dessa semana, mas o horário.
Por volta da meia noite, na RTP, Safe (2012), um filme estadunidense de género ação, aventura e crime. O poster mostra precisamente o protagonista a apontar uma arma ao... espetador!
Gomorra (2008), filme italiano sobre a máfia napolitana, a Camorra. "Dois rapazes roubam cocaína de um grupo de colombianos e são advertidos por Giovanni um dos chefes. Porém roubam armas de um esconderijo e depois assaltam um bar." Droga, crime, logo, violência. No poster os jovens protagonistas também empunham armas.
Arrow (2012), é uma série estadunidense baseada no personagem de BD Lanterna Verde, Oliver Queen, um playboy que se perde numa ilha deserta e que após cinco anos retorna para combater o crime e a corrupção de sua cidade.
Liberdade 21 (2008), é uma série portuguesa de género judicial. Ora, havendo necessidade de justiça e advogados, pressupõe a existência de combate ao crime. 

Na SIC esse fim de semana começa na sexta-feira à noite, depois da ultima novela ( da meia noite) com Investigação Criminal - Los Angeles (2009-), uma série estadunidense sobre o Departamento de Projetos Especiais (OSP - Office of Special Projects), "uma divisão da NCIS que tem a missão de prender criminosos que significam uma ameaça à segurança da nação" (americana). A noite continua com a série  também americana Mentes Criminosas (2005-), que já vai na 9a temporada, "sobre a UAC (Unidade de análise comportamental), uma esquadra de elite do FBI, com sede em Quantico, Virgínia. A equipe analisa criminosos do país por meio do Modus Operandi e a Vitimologia dos mesmos e antecipa seus próximos movimentos antes de eles golpearem outra vez. Neste quesito, a série difere-se de outros dramas policias por focar mais no comportamento criminal do suspeito do que o crime em si." 

A noite de sábado começa com O Contra-Ataque (2010), uma série inglesa sobre uma unidade secreta de inteligência militar britânica que combate o crime, sobretudo terrorista. O poster tem duas silhuetas de militares empunhando armas, com um fundo em tom vermelho (sangue) e um grafismo radial em contraste formado por balas. A composição fica composta com a frase que lhe serve de slogan: "O mundo não se salva a si mesmo." (No original "The world's not saving itself.") É por isso que são precisas armas (muitas armas) e violência (muita violência) para combater as armas e a violência no mundo. Faz sentido, não faz?

Há duas séries na programação infantil das manhãs de fim de semana que gostava de referir, não pela violência dos conteúdos mas pelo seu 'perigo' cómico. O primeiro é a série portuguesa com um título a indiciar um humor negro: A Família Mata (2011). O segundo é a série australiana Sam Fox - Aventuras Extremas (2013), sobre um adolescente que atrai a si às mais diversas situações de perigo: tubarões assassinos, leopardos, tornados, vulcões, escorpiões mortais e anacondas, entre outras. O lugar é de aventura e perigo, não propriamente incitando à violência, embora as imagens suscitem uma emissão extra de adrenalina nas crianças e jovens. 
A SIC tem atualmente em exibição uma mini telenovela brasileira, O Rebu (2014cujo enredo gira à volta de uma misteriosa morte.

É verdade que nem todos os crimes pressupõem violência. Mas estão quase sempre associados a maldade ou má conduta, que convém erradicar da sociedade. Mas como é que a sociedade se pode ver livre de atos cruéis, se o Homem tem em si maldade? Não pretendo dar uma aula de moral, mas acredito que ao refletir sobre a imoralidade que existe no mundo - e que o média televisivo expõe com vulgaridade - faz de mim uma pessoa com maior consciência e, logo, querer ser uma pessoa melhor, sem pensamentos ou atos maus. Consequentemente, mais feliz. Como dizia Epícteto:

"Se queres ser bom, convence-te primeiro que és mau."

O média também não é o problema, já que às pessoas cabe o julgamento e a filtragem necessárias para a sua vida. Afinal, eu também cresci a ler histórias da Agatha Christie ou a ver, sempre muito atento, a série protagonizada por um dos mais famosos personagens das suas histórias, o detetive Poirot. Talvez seja ela, ainda, a principal responsável e inspiradora de todos as séries e filmes friccionados (não reality shows) que vieram depois dela.

O problema é que nem toda a gente tem a capacidade de julgar corretamente as imagens (sobretudo imagens) que vê por forma a que elas se não venham a refletir nos seus próprios atos. A preocupação deve recair, principalmente, sobre os conteúdos a que as crianças e jovens assistem. É que apesar das classificações etárias a que estão obrigados os canais sobre os programas que exibem, a verdade é que isso não impede a que se tenha acesso a eles e em qualquer hora do dia. Uma preocupação que os educadores (pais ou qualquer outros) devem ter. Sem lições, sem moralidades bacocas (do género faz o que digo e não o que eu faço). Para bem da nação. E da televisão.


FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK