Mostrar mensagens com a etiqueta conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta conto. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vou microcontar-vos as janeiras


"O rapaz com pregos nos olhos,
Montou a sua árvore de Metal.
Parecia muito estranha
Porque ele realmente via mal."
Tim Burton, in A morte melancólica do rapaz ostra & outras estórias.

Micro-conto de Natal. Para celebrar a época natalícia. 
Neste caso, para festejar o fim de uma. Enquanto aguardo pela próxima, vou lendo e relendo outros micro-grandes contos de um enorme Senhor da criatividade.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Luar (doce) de Natal (Conto, 2009)



Enquanto percorria as ruas da cidade, principais artérias de uma baixa em alta tensão, devorava, lambia a cidade com os olhos, esbugalhados de fome e “comia” com gosto, com esses mesmos olhos, as luzes de Natal, como se fossem chocolatinhos embrulhados em papel delicado de alumínio.

- Que delícia! - pensava.

Ninguém lhe perguntava porque ia ele a sorrir, num autocarro apinhado, atafulhado de pessoas, de sacos, tantos com presentes. Ele continuava a pensar:
- É tão bom o frio que está lá fora. Aqui dentro está quentinho... hum! - estava feliz.
Em casa, enquanto a mãe embrulhava os presentes com jeitinho e movimentos quase coreografados mas delicados, ele embrulhava, sem papel, com beijinhos cheios de carinho, os pensamentos, bem arrumadinhos, para os entregar na noite especial.

Na noite de Natal, depois de ter desembrulhado os beijinhos todos e distribuído pelas pessoas que se juntaram à volta da grande árvore, a mãe chegou-se ao pé de si e disse-lhe ao ouvido:
- Não faz mal, não faz mal!
Apressadas, quase stressadas por nunca mais chegar a sua vez, as crianças esqueceram (ou nunca chegaram a saber?) todo o amor que ali se vivia. Nas mãos pequeninas, de crianças ainda mais pequenas, imensos brinquedos e nenhum, nem um só beijinho saiu de lá.
- Vá lá, não faz mal. P’ró ano há outro Natal!
O menino não chorou, porque a mãe lá ficou e ao seu lado o amou. Quando à noite se deitou, lembrou, lembrou, lembrou, que afinal o tal beijo que quis dar a toda a gente, voltava sob a forma de um queijo que a lua devorou. Essa, estava lá fora, alta, por entre as árvores escondida a devorar, tão contente, os tantos carinhos que ele tinha oferecido como presente.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Um dia na vida do ca(ga)nito Xico



Olá. Eu sou um cão. O meu nome é Xico. Sem diminutivos: nem “Xi”, nem “Co”. Vivo com o meu dono, o Vascoal. É mesmo assim que ele se chama (coitado) o meu dono: Vascoal, nem Vasco, nem Pascoal.

E porque é que ele se chama assim? Não sei, nunca e disseram. Aliás, os humanos poucas conversas inteligíveis têm para comigo. Resumem-se a frases imperativas como “deita”, “vai”, “vem cá”, “lindo menino” (provavelmente a maior das verdades que eles dizem, quando dizem alguma coisa “comestível”) e pouco mais (se estas expressões são familiares ao caro leitor, não é por acaso: é porque sabe que é mesmo assim).

Como eu dizia, eu não “sei” porque é que o meu dono se chama Vascoal, mas desconfio; porque ouço muitas conversas que ele tem com as outras pessoas. Desconfio que ele assim se chama porque a mãe dele gostava que ele se chamasse Vasco e o pai gostava que ele se chamasse Pascoal. A criança não podia estar à espera de nome para ser chamada e quando a discussão no registo civil, para que os adultos se decidissem “a bem”, não atava nem desatava – os humanos não gostam nada que não chamem os bois pelos nomes e o senhor funcionário resolveu dividir o mal pela raiz do bem e da sensatez, e fez com um tal Rei Salomão (que queria cortar uma criança ao meio). E eu pergunto-me:
- Como é que um cão pode saber estas coisas? 
Bem, isso é outra história, para outro conto. Chama-se a isto, aguçar a curiosidade do leitor, puro Marketing, adaptado aos caninos. Quando os pais repararam no engano, pensando que ambos tinham levado a sua avante, e viram que as letras no nome não elas as letras pelas quais teriam “lutado”, era tarde de mais e os registos centrais não podiam alterar.

Adiante, que se faz tarde e tenho muito pouco tempo. Pelas contas que os humanos decidiram fazer por nós, apesar de eu ter nascido há 6 anos do calendário ocidental, já estou perto da meia idade.

Vascoal ficou, como se o homem tivesse nascido numa terra (ou noutro mundo) onde trocam os “pês” pelos “vês”, como noutros sítios deste país... ouvi dizer. O nome faz-me rir.

Como dizia, sou um cão e como qualquer outro animal, tenho os meus caprichos. Sou pachorrento mas atento, paciente mas decidido, de cor preta mas com alma cândida, sensível mas não “flôr”, fiel (como não podia deixar de ser; não posso contrariar o mau próprio adn) mas não destemido. Sei que há cães a quem gostam de chamar “espertos” pelas proezas que fazem. E eu digo:
«- Ó Lassie, se és assim tão boa, porque é que não foste para o circo? Ah, tu és mais salvar pessoas, está bem. Tu lá sabes, mas estás a perder-te. A saltar arcos em chamas (ou até apagados) é que tu estavas bem: tinhas uma vida mais calminha... que Hollywood dá cabo até das vidas dos cães com as melhores das intenções
Eu tenho os olhos pretos como caganitas de ovelhas. 
Que me perdoe o leitor a linguagem, mas estas são as minhas referências. Não cresci no meio de olivais e por isso não sei como são aquelas coisas a que chamam azeitonas.

Nasci, dizem, numa aldeia, num norte – lá está, a vegetação é outra. Mas um cão vegeta em qualquer lugar... de repente perdi o norte ao meu mundo e vim parar à cidade. A mim, esta cidade onde dizem que moro, parece-me uma aldeia, porque é pequeno o espaço onde me deixam (a) viver.

O Vascoal (hi, hi...)... deixa-me preso nesta varanda todos os dias quando sai para o trabalho. Não é que me importe muito. Neste tempo todo de sossego, tenho tempo para contemplar a minha vida... e a dos outros.

Quem disse que a vida de um cão é pera doce, é porque nunca lhe descascou a pele. A minha vida não é fácil, mas não posso desejar outra. Acho que a de alguns humanos é muito mais cão que a minha!

Acordei. Não sei que horas são. Não sei o que são horas – sei apenas que as horas são muito tempo umas vezes e outras não são tempo nenhum... são minutos que passam mais devagar ou mais depressa, consoante der mais jeito a quem os conta. Parece-me que é cedo, pelo olhar do Vascoal. É cedo para ele, não para mim, que acordei há muito e nem sei se é dia se é noite. Luz não há certamente, porque ele gosta assim. Para dormir até mais tarde. Para quê, não sei. Sei apenas que a minha bexiga dá horas e minutos há demasiado tempo, mas eu contenho.

Com os meus olhos “caganitos” vejo o mundo todo, desde o sítio onde nasci, até aqui onde adormeço todos os dias. Vejo-o com olhos de ver, com desinteresse aparente.

---

Nota do transmissor da história do Xico:
Este é apenas o primeiro de vários episódios de uma série de três volumes editados e que estão a fazer enorme sucesso. Está na calha a adaptação ao cinema mas ainda não se sabe quem vai interpretar o papel do protagonista.
Esta história tem uma moral:
Não abandonem os vosso animais: eles podem vir a escrever livros que se tornarão best sellers e vocês podem vir a ganhar muito dinheiro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Próxima : indiscrição sem paragem (Ficção, 2002)



Que raio! Quem é aquele homem? …não para de olhar… disfarço, fingindo muito interesse na linha do metro. A estação não está apinhada, mas também não está vazia. Não é hora de ponta… é noite já.

E pronto! Teimou, está visto. Que chatice…

Será que eu tenho ar de maricas? Visto e pareço o mais normal possível. Que é como quem diz… não acho que tenha muito bom gosto. Daí a minha admiração!

Olho novamente - se calhar eu também devia parar de olhar. Posso estar a fomentar a situação. Não consigo evitar. Faz-me espécie… - e superficialmente passo os olhos por aqueles lados para verificar se parou de vez. Eu detesto ser observado. Aliás faço tudo para o não ser. Gosto de passar despercebido.

Gaita… lá está ele.

Já me deve ter tirado as medidas todas. Todos os centímetros. E eu continuo à espera do metro.

De todas estas passagens também eu, inevitavelmente, já o consigo descrever. Não é que queira… ao longe (consigo reparar apesar da distância) encosta-se ao outdoor com as mãos nos bolsos, blusão de ganga e calças escuras… não sei que tecido…percebo pouco disso. Cabelo médio, liso, escuro e de aspecto molhado. Barba por fazer, parece-me, pelos tons escuros que consigo observar daqui. Os olhos também não têm luz nenhuma.

Finalmente lá entro no transporte e sento-me no primeiro lugar vago e, principalmente, vazio. No exterior… ou seja, no interior do túnel mas lá fora, vejo o reflexo das coisas que se passam cá dentro. Continuo e observo. Não tenho coragem de olhar directamente as pessoas e finjo-me, mais uma vez, pensativo, como se a morte da bezerra estivesse no vidro da carruagem. E passa ele: o homem dos olhos escuros. Parou mesmo ao lado da senhora que se encostou a mim, cheia de sacos. Para além de gorda cheira a impulse dos 300. Mas o outro lá está. Em pé. Passa uma paragem, duas, três e às duas por três levanta-se a tal senhora: sai na próxima, adivinho. Ponho-me a adivinhar que o outro se vai sentar no lugar deixado vago. Enganei-me: deixou sentar outra senhora que traz um corpo quase sem cheiro, não fosse o dos amendoins e chocolate que sai do saquinho de emánémes que vasculha com os dedos e que vai pescando de vez em quando. Nem agradeceu ao cavalheiro.

A próxima é a minha paragem e ao preparar-me para me levantar reparo que ele já se encontra ao pé da porta de saída: lógico - também sai na próxima. Enquanto para o metro e avanço até à saída espero que iremos em sentidos opost… nem consegui acabar este meu pensamento… nem vale a pena… vamos mesmo no mesmo sentido. Eu vou atrás em passos mais lentos, para ver se o despisto. Desapareceu ele lá à frente e eu, em passo habituado à lentidão daqueles segundos. Não aumento a velocidade e quase parado o meu corpo avança para a estação do comboio que, pelo contrário, parece apressado apesar de estar parado. Eu rio (mostro apenas um sorriso cúmplice e pessoal a mim mesmo) do monstro de metal que só tem de esperar que o número 55 mude para 56 para poder partir. E é o que, precisamente faz, quando às vinte horas e cinquenta e seis segundo o tableu que avisa que esta hora, neste dia, nunca mais veremos.

Veremos…


Créditos de imagem: Subway Painting III (Version 2), 2005, óleo sobre tela, Hillel Kagan


FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 

* * *



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Deixa-me submerso (Ficção, 2006)



Enquanto se estava a afogar, vários pensamentos vieram à tona. Não o da morte. Nem o da vida em flashback. Nunca percebera como é que isso se passava com as outras pessoas que têm experiências idênticas, nos relatos da TV.

Não via a sua vida nem a cores, nem a preto e branco, ou sequer a sépia. Se a visse, vê-la-ía como recorda as fotos dos primeiros anos da sua vida, nos finais da década de 70... tão maravilhosamente esbatidas mas com nitidez suficiente para se recordar.
Enquanto o corpo, lentamente, mergulhava, esbracejava e conseguia sentir o frio da água e o frio da música que ainda conseguia ouvir no iPod. Tal e qual um baptismo forçado.
A vida não transbordava mas lembrava o rosto daquela que amava. E de todas as outras. Mas era no azul dos olhos dela que queria mergulhar. Não ali.

Enquanto esbracejava e tentava, agora com mais força (ou mais vontade), salvar-se, várias imagens, não bóias, vinham à tona. E ele à toa...

Enquanto o salvavam, desejou que tivessem demorado um pouco mais. O iPod continuava a tocar a música que fazia a banda sonora do seu afogamento e “Um pouco mais...”, desejava ele: queria isolar-se de todas as pessoas, da cidade, da confusão, da multidão. Queria afogar-se no afastamento de tudo aquilo. Mas voltou. Alguma coisa o salvou.

Tiraram-lhe, finalmente, os fones dos ouvidos e o salvamento terminou.

Diz-se que o último que fala é que tem razão. Talvez seja o último que morre.

Imagem :
"Ophelia" (pormenor), 1851-1852
Sir John Everett Millais (Tate Britain, Londres)
Ofélia é uma personagem da peça Hamlet, de Shakespeare, que canta antes de se afogar num rio na Dinamarca.

***
FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Outra história pós-laboral (2000)



Hoje é dia de céu. Só me apetece olhar para ele a ver se chove. Dava na meteorologia, mas… nem o sol. Eu gosto de sol mas hoje eram uns pingos de chuva que queria ver (talvez sentir).
O céu é lindo. Mesmo com as nuvens cinza. O ambiente é húmido mas eu sinto-me seco e quente. Desejo ser o vento para gelar os cabelos vermelhos e pretos da rapariga que vai sentada à minha frente. É bonita. Parece uma amiga minha.
Gostava de a conhecer mas sou demasiado discreto para sequer mostrar algum interesse.

Quando chego à estação há um homem com um computador portátil à minha frente. É sexta feira e o expediente parece ainda não ter acabado para ele. Continua.
Já no comboio, depois de uma estação, paramos no meio do caminho e no interlocutor agradecem a nossa compreensão pela espera. Qual compreensão? Não tem que agradecer. Eu queria compreender…

O homem do portátil parou de trabalhar. Olha, agora, a rapariga do cabelo vermelho, que apanhou o mesmo comboio que eu. Parece gala-la. Será que quer o mesmo que eu? Se quer, é muito menos discreto. Não devemos querer a mesma coisa.

Continuo parado – é uma avaria noutro comboio – sei-o pelo mesmo interlocutor de há bocado,. Já não me apetece olhar para o céu. Não anda e eu gosto de vê-lo é em movimento.

Assim parece que o tempo parou. Mas eu continuo a escrever fervorosamente. Tenho sono e encosto-me à janela. Se adormecer, para além de passar melhor o tempo, tento ganhar o tempo que podia ter ficado a dormir de manhã.

Quando acordo vejo o comboio no mesmo sítio. Será que dormi muito tempo? Há quanto tempo estarei aqui? Tenho demasiada vergonha para perguntar as horas ao senhor que vai ao meu lado. Será que viajei no tempo? O relógio do comboio mostra umas horas em que eu não devo confiar pois nunca costuma bater com o meu (quando o tinha, antes de ter sido assaltado a semana passada a sair da estação).

O céu move-se… digo… o comboio. Não é que eu tenha pressa. Quando chego a casa não está lá ninguém. Desejava que fosse segunda-feira amanhã. Olhar para os meus colegas, ainda que falemos pouco e só de trabalho, sempre é melhor do que ver televisão o dia todo.

Adoro o céu. Se pudesse morava nas nuvens e de vez em quando escondia-me da terra para que não me pudessem ver.

Continuo a achar a rapariga do cabelo vermelho interessante. São mesmo nuances vermelhas sobre o preto natural e brilhante. E contrastam com o resto da sua figura. Misteriosa e… sinto qualquer coisa no ar. Ela está duas filas à minha frente. O homem do portátil de vez em quando disfarça que não olha – muito mal e raramente – dá muito nas vistas – típico.

Ela, sinceramente, não me transmite vida nenhuma. Própria.

Ele vê-se logo que vai ao futebol aos fins-de-semana com os amigos, e talvez jogue. Acabou o curso (sabe-se lá de que curso chato) e tenta, como aliás todos nós, fazer passar-se por executivo. Eu faço passar-me por uma pessoa e como tal desejo conhecer a tal rapariga. Tanto. E chego a desejar, no minimo, que ela olhe uma única vez que seja para mim. Nem sabe que eu existo. Por isso preferia morar lá em cima. Não quero mover-me. Sim, deixar-me voar com o pensamento naquilo que quero e não tenho.

Chego a casa entretanto.

Qual casa?

Assombrada de vazio, nem um beijo. Não tenho paciência para animais domésticos e pouca tenho para me domesticar a mim mesmo. Não gosto de fazer ginástica e sento-me longas horas, a ler um jornal da semana passada ou do dia anterior. Nem vejo a data. Só as letras gordas. Já me chegam os números de contabilidade durante todo o dia. Chega de caracteres. A música aborrece-me. Toda. Nem penso se sou aborrecido.

Gosto de cozinhar. É a minha emoção principal para todo o dia. É um sonho: morar e cozinhar nas nuvens. Pratos grandes para servir à minha... ao meu amor que... terei?

Acho que cozinho muito bem. Não sei porque nunca ninguém provou. Só eu. E eu gosto, por isso devo ser bom. De vez em quando arrisco no MacDonalds. É mesmo um risco, uma aventura. Como ver filmes de terror: uma emoção de medo e desejo. Um horror que gosto de sentir... e saboreio.

(História escrita originalmente em papel.)


* * *
FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 



sexta-feira, 18 de julho de 2014

O dia em que estraguei a cena à Nicole Kidman

Era outro dia normal de trabalho. Era um dia de verão, daqueles intermitentes, cujo calor ora vem ora vai. Nesse tinha vindo. Subi a escadaria do Palácio, como habitualmente. Vi que estava tudo em ordem no Salão Nobre. Quando cheguei à Sala seguinte, que num dia comum costuma estar meio escura, com as portadas fechadas para não entrar sol nem calor (nem vida), para minha surpresa, estava iluminada. Duplamente iluminada. As portadas estavam abertas, daí o sol. As luzes acesas, com holofotes de uma filmagem ligados, daí a iluminação. Parece que estavam a filmar uma cena para um filme. Não avisaram este segurança, mas tudo bem. Estas cenas são habituais.


Passei os olhos pela sala, a admirar a azáfama, aproveitei para ver se estava tudo bem. De repente os meus olhos passaram por uma figura alta e esguia, loura e bonita, uma mulher com um vestido esplendoroso. Não percebo nada de moda, por isso não consegui distinguir se era Chanel. Mas percebo de cinema e de mulheres bonitas, por isso identifiquei logo a atriz, estrangeira: Nicole Kidman. Esplendor ao vivo. A sala estava triplamente iluminada.

Hesitei. Pensei em ir ter com ela, ela estava numa pausa de uma cena, junto a uma das janelas e o sol que dela irradiava multiplicava o seu esplendor, ao refletir nos cabelos louros e a iluminar-lhe os olhos, ainda mais claros pela luz que vinha dos Restauradores. Hesitei novamente, mas não podia deixar passar a oportunidade. Não queria autógrafo. O que me apetecia era algo... mais. Como o meu desejo por aquele chocolate branco não se esvanecia, ganhei coragem, aproximei-me da janela e disse-lhe, quase a sussurrar, quase a cantar:
- We should be lovers...

Ela entendeu, mas não replicou nem pareceu surpreender-se. Desviou o olhar como que a dizer "Não podemos!". Eu voltei à carga, dizendo-lhe baixinho que “We should be lovers! And that's a fact. We could steal time... Just for one day. We could be heroes, Forever and ever.” Ela parecia fixada no sinal do Hard Rock Café, do outro lado da Praça e sem olhar para mim perguntou-me o que é que eu realmente queria. Levei a mão ao bolso e ela nesse momento virou-se, talvez assustada. Puxei do meu telemóvel e perguntei-lhe:
- Podes tirar uma selfie comigo?
(Nesta altura ela até português já entendia.)
Não negou o meu pedido e antes que a sua assistente viesse em seu auxílio, tirámos rapidamente a selfie. Separámo-nos logo de seguida e cada um seguiu o seu caminho e o seu trabalho: ela a filmar mais uma cena, eu a acenar-lhe, retomando a minha rotina, circulando, sozinho, a vigiar e a vaguear pelas restantes salas nobres do Palácio. Não consegui partilhar imediatamente a fotografia no Facebook. Fiquei a olhar para ela e comecei a trautear uma música, inspirado por aquela musa.
- It’s a little bit funny, this feeling inside. I’m not one of those who can easily hide. I don’t have much money but if I did…
(Nesta altura eu já tinha aprimorado o meu inglês.)
Perdido na cantoria, distraído pela sensação que ainda tomava conta de mim, encontrei um microfone no chão, provavelmente deixado cair pela produção. Peguei nele e continuei a cantar, ainda inspirado:
- Don't, leave me this way. I can't survive, without your sweet love, Oh baby, don't leave me this way.
Não sei exatamente o que se passou a seguir. Pensava estar só naquela sala, mas um homem estava a um canto, a ouvir-me. Veio ter comigo e disse-me que era o realizador do filme e que queria que eu participasse nele.
- Mas eu sou só um segurança.
Disse-lhe eu, que naquele momento não segurava nada, a não ser o microfone. Mas ele não estava a brincar. Fez de mim o protagonista do filme e de um momento para o outro o estrelato não estava do lado daquela atriz australiana, esplendorosa, mas do meu. Eu era quem lhe roubava as atenções. Depois de filmarmos a última cena, ouvi a Nicole a dizer, ao longe, em tom invejoso e com desdém:
- Some people wanna fill the world with silly love songs.
(Nota: esta cena foi tirada, e inspirada, de um sonho verídico.)


terça-feira, 27 de maio de 2014

O mito do rapaz rosa


Conto Infantil Mitológico
O rapaz Rosa, não nasceu flor. É Rosa de nome. Hipólitus Rosa, assim é que é. Como o seu primeiro nome era complicado, e não tinha segundo, por Rosa era tratado. Ele não gostava nada, mas não tinha opção. Assim, por causa dos outros meninos, que gozavam com ele, ou melhor, com o seu nome, foi-se afastando deles e das brincadeiras de grupo. Isolou-se em si mesmo e nos seus próprios jogos. À medida que ia crescendo, mais se afastava e não deixava ninguém aproximar-se que era logo “picado” pela sua amargura.

Um dia, Tlaloc, o Deus asteca da Chuva e da Água (e que também era o Senhor do raio, do trovão e do relâmpago), mandou chamar o seu escravo Regador. Tlaloc também tinha um nome “esquisito”, e, como o rapaz Rosa, não gostava nada que gozassem com ele. E ninguém se atrevia a fazê-lo, pois ele, para além de Deus, era rei e Senhor! Tlaloc compadeceu-se do rapaz Rosa e, do alto do seu trono, vestindo o seu deslumbrante manto azul turquesa, ordenou o Regador, que era responsável pela distribuição da água pelos céus, pela terra e pelo Universo, que fosse espalhar a sua água por cima do rapaz Rosa.

Ele assim fez.
O rapaz Rosa, quando sentiu as pingas de água cairem sobre si, pensando que eram “apenas” gotas de chuva (de facto, isso parecia), deixou-se estar e molhar, pois a água era a única coisa que ele gostava, realmente, de tocar e que o tocasse. Alguns segundos apenas bastaram para ficar encharcado e a chuva parou de repente. Antes que tivesse, sequer, tempo de correr para casa e se secar, algo extraordinário aconteceu: da sua pele, por todos os lados, começaram a sair uns pequenos picos. Ao princípio pareciam borbulhas, ou até varicela. Mas ele não tinha comichão. E iam crescendo.

Da cabeça começou a brotar uma película que parecia descascar-se suavemente, e aos poucos, começou a assemelhar-se ao botão de uma flor. O seu corpo estava cada vez com mais picos, que iam crescendo até o cobrirem quase por completo. Em pouco tempo, o botão de flor, na sua cabeça, desabrochou e revelou ser uma rosa. O rapaz ficou completamente transformado nessa flor, dos pés à cabeça. Coberto com espinhos mas com uma lindíssima cabeça que atraia os insectos mais coloridos.

Estava concluído o processo de metamorfose do rapaz Rosa. Agora ninguém podia chegar perto dele, pois corria o risco de se picar. Apenas os seu novos e minúsculos amigos insectos. Ele não estava triste. Afinal, toda a sua vida tinha vivido a afastar-se de todos. Mas agora estava completamente isolado, restando-lhe caminhar, jardins fora, à procura de outros iguais a si, que não o “picariam” e a quem ele também não podia magoar.

Inspirado em:
«Quod petis, est musquam [...] ista repercussae, quam cernis, imaginis umbra est: nil habet ista sui.» Ovídio
Livro III d’As Metamorfoses, v.433 e ss. – Narciso e Eco (OVÍDIO, 2006); Na tradução de Domingos Lucas: “O que desejas não existe! [...] Essa sombra que vês é o reflexo da tua imagem! Nada tem de seu!”.