domingo, 16 de novembro de 2014

Doce e Sem Açúcar


Amora silvestre
Que sabor tens no trago?
É amor que tiveste?
Óh, amor, tão amargo.

Porque choras, coisinha?
Estás tão triste, não fiques
Com cara de andorinha
Pronto, és doce, docinha.

Já te disse, avelã
Deixa a prima em paz
Já te disse a mamã:
Se não quiseres ir, não vás.


* * *
FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Próxima : indiscrição sem paragem (Ficção, 2002)



Que raio! Quem é aquele homem? …não para de olhar… disfarço, fingindo muito interesse na linha do metro. A estação não está apinhada, mas também não está vazia. Não é hora de ponta… é noite já.

E pronto! Teimou, está visto. Que chatice…

Será que eu tenho ar de maricas? Visto e pareço o mais normal possível. Que é como quem diz… não acho que tenha muito bom gosto. Daí a minha admiração!

Olho novamente - se calhar eu também devia parar de olhar. Posso estar a fomentar a situação. Não consigo evitar. Faz-me espécie… - e superficialmente passo os olhos por aqueles lados para verificar se parou de vez. Eu detesto ser observado. Aliás faço tudo para o não ser. Gosto de passar despercebido.

Gaita… lá está ele.

Já me deve ter tirado as medidas todas. Todos os centímetros. E eu continuo à espera do metro.

De todas estas passagens também eu, inevitavelmente, já o consigo descrever. Não é que queira… ao longe (consigo reparar apesar da distância) encosta-se ao outdoor com as mãos nos bolsos, blusão de ganga e calças escuras… não sei que tecido…percebo pouco disso. Cabelo médio, liso, escuro e de aspecto molhado. Barba por fazer, parece-me, pelos tons escuros que consigo observar daqui. Os olhos também não têm luz nenhuma.

Finalmente lá entro no transporte e sento-me no primeiro lugar vago e, principalmente, vazio. No exterior… ou seja, no interior do túnel mas lá fora, vejo o reflexo das coisas que se passam cá dentro. Continuo e observo. Não tenho coragem de olhar directamente as pessoas e finjo-me, mais uma vez, pensativo, como se a morte da bezerra estivesse no vidro da carruagem. E passa ele: o homem dos olhos escuros. Parou mesmo ao lado da senhora que se encostou a mim, cheia de sacos. Para além de gorda cheira a impulse dos 300. Mas o outro lá está. Em pé. Passa uma paragem, duas, três e às duas por três levanta-se a tal senhora: sai na próxima, adivinho. Ponho-me a adivinhar que o outro se vai sentar no lugar deixado vago. Enganei-me: deixou sentar outra senhora que traz um corpo quase sem cheiro, não fosse o dos amendoins e chocolate que sai do saquinho de emánémes que vasculha com os dedos e que vai pescando de vez em quando. Nem agradeceu ao cavalheiro.

A próxima é a minha paragem e ao preparar-me para me levantar reparo que ele já se encontra ao pé da porta de saída: lógico - também sai na próxima. Enquanto para o metro e avanço até à saída espero que iremos em sentidos opost… nem consegui acabar este meu pensamento… nem vale a pena… vamos mesmo no mesmo sentido. Eu vou atrás em passos mais lentos, para ver se o despisto. Desapareceu ele lá à frente e eu, em passo habituado à lentidão daqueles segundos. Não aumento a velocidade e quase parado o meu corpo avança para a estação do comboio que, pelo contrário, parece apressado apesar de estar parado. Eu rio (mostro apenas um sorriso cúmplice e pessoal a mim mesmo) do monstro de metal que só tem de esperar que o número 55 mude para 56 para poder partir. E é o que, precisamente faz, quando às vinte horas e cinquenta e seis segundo o tableu que avisa que esta hora, neste dia, nunca mais veremos.

Veremos…


Créditos de imagem: Subway Painting III (Version 2), 2005, óleo sobre tela, Hillel Kagan


FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 

* * *



sábado, 8 de novembro de 2014

As vidas que cabem num dia


A rotina é uma coisa tramada. Ela transforma os hábitos em clausura e ao mesmo tempo separa a nossa vida das vidas que estão 'lá fora', no 'outro' mundo.
Basta sair um pouco da rotina, quebrá-la ou rachá-la, apenas, para se ter uma maior noção que a vida é maior do que aquela em que cabe a nossa própria vida. 
Não é preciso muito. Ás vezes ir pelas escadas, atravessar a rua, mudar de passeio, mudar de estrada, de banco (ou de cadeira), de linha de metro, de jardim, de café ou de esplanada, de uma divisão da casa para outra. Ou sair porta fora, atravessar um continente, um país, um mar ou apenas um rio. Diminuir os passos que damos ou até mesmo parar. Ou correr, saltar, brincar a um jogo que nunca brincámos. Meter conversa com alguém com quem nos cruzamos todos os dias mas com quem nunca falamos. 

Hoje a reunião de trabalho é num sítio diferente. Não vou para um escritório. Estarei em vários sitos, logo, em vários 'escritórios'. Saio numa estação de metro que costuma ser apenas de passagem.  Naquela saída, enquanto aguardo pelo colega e amigo de trabalho, em menos de dez minutos passam por mim varias vidas: a da mulher que trouxe de carro o marido até ali (despediram-se com um beijo e uma troca de olhares cúmplices, que diziam qualquer coisa que não consegui traduzir para a minha linguagem - é só deles e não tem de ser de mais ninguém), do rapaz nitidamente nervoso a tirar a carta de condução, na mulher jovem, bem vestida, que vai para o trabalho (imagino eu) na sua bicicleta (muda descontraidamente de faixa para se desviar de um carro estacionado, metendo-se à frente de outros carros, que lhe buzinam, mas ela despreocupadamente segue o seu caminho como se nada fosse), as crianças que àquela hora da manhã já brincam no parque do meio da grande alameda verdejante da cidade. 

O parque infantil recebe as crianças com os mesmos raios de sol que, ali bem perto, eu também recebo. O parque infantil tem o chão de areia. Reparo num sinal à entrada que indica que a areia é higienizada regularmente. A cidade pensa em tudo. Outro sinal ao lado tem uma série de números de telefone para alguma urgência, de qualquer tipo: médica (112), municipal (divisão da Câmara responsável por aquele equipamento) e até da ASAE. Estará a areia tão limpa que se pode cozinhar nela? 

A primeira paragem para uma inicial parte da reunião é numa mesa de café no Parque das Nações, onde um de nós toma um pequeno almoço já tardio (o segundo, talvez). Dali seguimos para Marvila, onde vou encontrar uma igreja do século XVII. Está fechada. O segurança diz que a chave está com uma senhora, dona de uma mercearia ali em frente. Fomos ter com ela e lá a conseguimos convencer que somos pessoas sérias e que não vamos demorar muito. Descobrimos que a senhora é de Viseu e ainda acabamos por lhe comprar umas ameixas, depois de eu conhecer o rico interior barroco do edifício religioso, uma relíquia da cidade de Lisboa. Talha dourada, azulejos, quadros, mármore a formar intrincados padrões quer no chão quer nas paredes, tudo a condizer com o estilo artístico.  Algumas coisas a precisar de urgente restauro (um dos altares está mesmo retirado para esse efeito).

A reunião continua para o local onde era suposto haver outra pequena reunião. Como não se agendou e é tudo muito (demasiado) informal, batemos com o nariz na porta e a manhã de trabalho dá-se por concluída. Devia seguir para o ginásio, mas pego antes qualquer coisa para comer e vou para o anfiteatro da Gulbenkian saborear o meu manjar, enquanto me inspiro para escrever e enquanto inspiro o ar daquele pequeno paraíso verdejante também no centro da cidade. O mundo tão perto mas tão longe dali. Vou ao CAM, decido. O Centro de Arte Moderna é a próxima paragem e faço uma pausa na escrita.
Ponho na porta deste post um
VOLTO JÁ

***

Mente exercitada. Falta o corpo. Vou e fui.
A tarde está passada, mas não o dia, que ainda tem trabalho pela frente. 
Muito trabalho, mas muito inspirado.



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Deixa-me submerso (Ficção, 2006)



Enquanto se estava a afogar, vários pensamentos vieram à tona. Não o da morte. Nem o da vida em flashback. Nunca percebera como é que isso se passava com as outras pessoas que têm experiências idênticas, nos relatos da TV.

Não via a sua vida nem a cores, nem a preto e branco, ou sequer a sépia. Se a visse, vê-la-ía como recorda as fotos dos primeiros anos da sua vida, nos finais da década de 70... tão maravilhosamente esbatidas mas com nitidez suficiente para se recordar.
Enquanto o corpo, lentamente, mergulhava, esbracejava e conseguia sentir o frio da água e o frio da música que ainda conseguia ouvir no iPod. Tal e qual um baptismo forçado.
A vida não transbordava mas lembrava o rosto daquela que amava. E de todas as outras. Mas era no azul dos olhos dela que queria mergulhar. Não ali.

Enquanto esbracejava e tentava, agora com mais força (ou mais vontade), salvar-se, várias imagens, não bóias, vinham à tona. E ele à toa...

Enquanto o salvavam, desejou que tivessem demorado um pouco mais. O iPod continuava a tocar a música que fazia a banda sonora do seu afogamento e “Um pouco mais...”, desejava ele: queria isolar-se de todas as pessoas, da cidade, da confusão, da multidão. Queria afogar-se no afastamento de tudo aquilo. Mas voltou. Alguma coisa o salvou.

Tiraram-lhe, finalmente, os fones dos ouvidos e o salvamento terminou.

Diz-se que o último que fala é que tem razão. Talvez seja o último que morre.

Imagem :
"Ophelia" (pormenor), 1851-1852
Sir John Everett Millais (Tate Britain, Londres)
Ofélia é uma personagem da peça Hamlet, de Shakespeare, que canta antes de se afogar num rio na Dinamarca.

***
FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 

sábado, 1 de novembro de 2014

Jardins-Memória : O Príncipe dos Jardins


O Jardim do Príncipe Real foi um dos jardins da minha infância. Nele brinquei e dele guardo memórias que perduram até à minha infância atual. Nele se encontra a Mãe de Água, reservatório que inicia um longo percurso subterrâneo de curso de águas, que tem no Aqueduto o seu expoente máximo. Dele confluem outros 'leitos', várias ruas que dão acesso a várias outras e outros locais igualmente emblemáticos. 
Um dos lados do jardim vai 'desaguar' ao início da Rua do Século, que encontra o seu fim entre o Calhariz e o cimo da Calçada do Combro. 
Dessa parte do jardim, onde se encontra a enorme e secular árvore cuja folhagem cobre um considerável diâmetro e bancos, vê-se o edifício de arquitetura única onde está estabelecida a Liga dos Amigos dos Hospitais.

Outro lado tem afluentes, um dos quais vai dar ao Jardim Fialho de Almeida, na Praça das Flores, que por sua vez vai encontrar, um pouco mais abaixo, a Rua de São Bento (e daqui à Estrela). É nesse afluente, da Rua do Jasmim, que se encontra a minha segunda escola primária, que me acolheu da terceira à quarta classe e onde acolhi, entre ensinamentos básicos indispensáveis, algumas reguadas e puxões de orelha - poucos, memoráveis mas perfeitamente dispensáveis (já nessa altura eu mostrava o meu lado witty wit). Dessa rua avista-se o rio e a ponte sobre ele. 

No lado oposto começa a Rua da Escola Politécnica, onde a meio se encontra a entrada para o Jardim Botânico e o Museu de História Natural. Uma das suas principais artérias é a Rua de São Marçal, que parece não parar de descer e, por isso mesmo, convidava-me a desportos radicais como andar de skate. A partida iniciava no British Council (onde anos... muitos anos mais tarde iria estudar inglês).  Foi aí que me iniciei nessa aventura sobre rodas, quase sempre sentado (pois a descida é íngreme). Essa rua é teimosa a descer e encontra, no seu fim, a Rua do Poço dos Negros, não sem antes se cruzar com a estreita rua onde eu morava, de onde se avistava o Palácio de São Bento, mais conhecido pela Assembleia da República. 

Ainda desse lado do jardim, mesmo em frente a ele, fica um edifício que sempre me espantou e atraiu, desapontando-me nos últimos anos o estado de abandono a que chegou. Recentemente foi reabilitado e acolhe uma série de lojas que oferecem muito design sobre várias formas. Chamou-se ao espaço desse antigo palácio Embaixada. Ao lado dele pode descer-se uma pequena rua até ao Jardim Alfredo Keil ou da Praça da Alegria, que é um cantinho verde e simpático junto ao (ainda) Parque Mayer e à Avenida da Liberdade.


O Jardim do Príncipe Real  é o ponto onde acaba a Rua da Escola Politécnica e começa a Rua D. Pedro V, que tem algumas lojas de antiguidades e antiquários, e mimosas casas antigas, uma dela uma pastelaria que mantém, no seu interior, uma decoração e estilo entre a Arte Nova e o Clássico, um local de paragem obrigatória para um bolinho (e nada cara*), antes de começar a descer para o Jardim António Nobre, mais conhecido pelo miradouro de São Pedro de Alcântara. Ou então pode passar por baixo de uma discreta arcada que dá acesso a um restaurante com uma esplanada que já se encontra nos itinerários das melhores de Lisboa, o LostIn, um sítio cozy, colorido, simpático com uma vista soberba para as outras colinas de Lisboa. 

Por muito que tenha andado, descido e subido, a pé ou pelas palavras deste post, nunca cansa o passeio.

---


* Um croissant com creme e um galão, por exemplo, custam apenas 1,70€, com direito a uma viagem no tempo e um cheirinho a pão a cozer que abre qualquer apetite mais fechadito.
Nota: as imagens não têm, propositadamente, legenda, para que seja cada um a descobrir a sua origem, e outros cantos não mostrados.


***
FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 








quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Os anos de casa que interessam



Que valor tem, nos dias de hoje, ter 10, 20 ou 30 anos de casa? 'Anos de casa', para quem não sabe, são aqueles anos que se passam a trabalhar para uma empresa, que nesse período é a sua casa. Não confundir com lar! Isso é outra coisa completamente diferente.

No dia a dia de um trabalho fazem-se amizades (algumas das quais se guardam para a vida), zangam-se comadres, partilham-se novidades (para quem não sabe, a partilha de novidades, 'antigamente' era feita ao vivo e a cores, olhos nos olhos, mano a mano, face to face). 
O valor, neste caso, pode ser absoluto ou relativo.

Absoluto, porque todas as pessoas que trabalham têm um preço para abandonar a casa. Estão a ver porque é que não se chama lar? Nos atribulados dias que correm, muitas pessoas têm feito - e ainda fazem - contas à vida, para saber quanto podem levar. No fim de contas, a vida tem um preço: todos temos contas para pagar e o trabalho não se faz apenas por desporto. Embora muitas pessoas retirem dele outros proveitos, para além dos financeiros.

Relativo, porque o valor que as relações que se criaram nesses anos de vida conjunta (mais conjunta que as poucas horas passadas com a família real) pode ser incalculável. 

Three Ladies At Tea 1999Itzchak Tarkay. Acrílico sobre tela, 113 x 145 cm
* * *
FAZ LIKE NA PÁGINA DO FACEBOOK 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Há lodo (e gajas nuas) no cais


A peça de teatro chama-se Cais Oeste, foi escrita por Bernard-Marie Koltès, considerado um dos expoentes máximos da dramaturgia francesa contemporânea, tem encenação do croata Ivica Buljan, que tem aqui a sua primeira colaboração com uma companhia portuguesa: a Companhia de Teatro de Almada. Está em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB), em Almada, de quarta a sábado às 21h30 e domingo às 16h, até dia 2 de novembro (2014).

Sim, há uma gaja nua em palco, a certa altura. Pronto, não guardo mais o suspense e espero que o título deste post suscite mais curiosidade para que se leia. E entra a Soraia Chaves. 
Mas a gaja nua não é ela, embora quase seja. Temos pena. Sobre ela e a sua interpretação no palco - a primeira a que assisto - não me alongo mais. É uma tentativa, como muitas outras a que já assisti. A rapariga é gira, tem um bom corpinho, uma carinha laroca e é agradável ao olhar, do alto dos seus saltos altos, saia e casaco de pele sobre uma blusa por onde quase saltam à vista outros seus atributos, por que é mais conhecida. Talvez só daqui a muitos anos se vá conseguir separar da fama que o cinema lhes trouxe (a ela e às suas amigas mamocas). Tem o seu mérito: fez com que esse filme tenha sido um dos filmes portugueses mais vistos de sempre. Na televisão também fica bem. Mas aqui fala-se de teatro.

O palco simula um cais abandonado onde nem para se ir morrer já serve. O cenógrafo Jeans-Guy Lecat criou uma espécie de armazém decrépito que ocupa quase todo o espaço, em comprimento, largura e altura. Quase sem paredes nem teto, ainda serve de abrigo a muitos que o procuram. Abrigo físico e humano. Quem o procura para morrer já foi rico, quem o encontrou para viver nunca o terá sido. Os personagens que naquele bairro vivem, convivem e esperam como aranhas, que por engano as suas presas mais tarde ou mais cedo ali caiam, para lhes devorar a riqueza que lhes resta, o resto da dignidade que já não têm. 

O jogo corporal dos atores, que Alexandre Pieroni Calado preparou, cansa. Cansa-os mais a eles do que a nós, espectadores. Aquela realidade está provavelmente longe da destes. Isso sossega-nos. Por isso apanha-nos de surpresa que os dois jovens (Ana Cris é heroína personificada, no duplo sentido da palavra) se dispam da sua vida perante nós, sem pudor. Literal e simbolicamente despidos fornicam à nossa frente. São apenas alguns segundos de prazer para o jovem casal, e chegam. Espantaria o ato a um público de início e meados do século vinte, quando as performances dadaístas, depois futuristas, tinham esse objetivo. Já se sabia que assim era. No século vinte e um já não seria de esperar o choque que a nudez, só por si, causa. Maior espanto e choque me causa os risinhos de jovens deste tempo, de um mundo desenvolvido, que nunca devem ter visto corpos desnudados, de machos ou fêmeas, à sua frente. Mas mais ainda o de adultos feitos, casais, que com toda a certeza já conhecem de ginjeira o ato da procriação e do prazer. Como eu costumo dizer:

- Peleeeeeease!

Que é como quem diz:

- Pelo amor da Santinha...

É uma imagem que entra por um qualquer ecrã deste mundo evoluído, muitas vezes sem a termos pedido. (As outras vezes é quando se pede ou pesquisa na world wide web e facilmente se encontra). Antes de entrar na sala do espetáculo eu já tinha sido advertido, por um amigo, que por sua vez tinha lido as críticas de diversos jornais e revistas, penduradas no espaço do foyer do TMJB, criado para o efeito. Diz que a crítica não tinha poupado os atores à sua tentativa de encontrar os respetivos personagens. Eu, que não costumo emprenhar pelos ouvidos (nem por outro qualquer orifício, acrescente-se), libertei-me dos preconceitos que muitas vezes estas críticas podem causar. A boa crítica causa outro tipo de reflexão, muito mais útil.

Não posso deixar de sublinhar a interpretação de Teresa Gafeira. A experiência nota-se. Até quando rebola no chão de um lado para o outro, à boca de cena, enquanto diz o seu texto, ora em português, ora em espanhol, ora numa língua que não percebi, a sua qualidade salta à vista. As palavras saem-lhe sempre límpidas, fortes e causam comoção. Não preciso de as entender. Noutras partes da peça, com outros atores, as palavras não foram tão claras e a dicção fazia com que se perdessem alguns significados.

Salve-me também o desenho de luz de José Carlos Nascimento mas, principalmente, o som magistral de Mitja Vrhovnik Smrerar. Que interessa que o senhor tenha um nome que me é difícil de pronunciar se ele foi mestre em me apresentar esta outra linguagem, que é a música, que casa tão bem com o tema e acrescenta o dramatismo cénico que se pretende.

É curioso que em alguns momentos dei comigo a fazer comparações com outras peças já  apresentadas pela CTA, sobretudo de Shakespeare. Talvez pela referência teatral que já são ou porque gosto sempre de comparar (o incomparável) com o que de bom se faz, se fez ou se vai fazendo. Depois, ao ler as notas de uma entrevista com o encenador (no programa, disponível no balcão da bilheteira), este refere que todas as cenas nas peças de Bernard-Marie Koltès descrevem as relações entre vendedor e comprador, "entre quem tem alguma coisa para vender e quem está interessado em comprar". E compara-o a Shakespeare. No entanto, aqui o mercador não está em Veneza mas num outro cais, talvez Cacilhas, até porque Ivica Buljan tenta sempre pensar no contexto em que está a trabalhar. 

No jogo entre quem quer vender alguma coisa e quem não quer comprar ou pagar, a dança dos corpos é ao mesmo tempo repulsiva e hipnótica. Este paradoxo faz parte do mundo tão contemporâneo (tão atual para um texto escrito nos anos oitenta) e tanto real quanto metafísico e metafórico. Os atores não descobrem apenas o físico uns dos outros. Eles nada têm, talvez nem corpo.

"É que Ivica Buljan tenta dar tanta importância às ideias como à matéria. Como se estivesse à procura de tornar a dramaturgia palpável através dos corpos dos actores, como se a superfície do trabalho teatral fosse a camada que permite mergulhar no que realmente lhe interessa." (Levi Martins)

Não é caso para rir. Muito menos para risinhos tímidos e parvos de algum espectador que ainda está a aprender, embora muito bem, a ser público de teatro. Ter ficado até ao fim, depois de mais de duas horas, sem intervalo, a absorver tantas emoções, é de se lhe tirar o chapéu e toda a roupa de eventual pudor conservador. Haja evolução de pensamento.

....................
Intérpretes Alexandre Silva, Ana Cris, António Fonseca, Danilson Delgado, Diogo Dória, Pedro Walter, Soraia Chaves e Teresa Gafeira


Encenação Ivica Buljan

Tradução Ernesto Sampaio

Cenografia Jean-Guy Lecat
Figurinos Ana Savic Gecan
Desenho de luz José Carlos Nascimento
Som Mitja Vrhovnik Smrekar
Assistência de encenação e preparação corporal Alexandre Pieroni Calado

Direcção de produção Carlos Galvão

Direcção de montagem Guilherme Frazão

Operação de luz e som Miguel Laureano
Montagem Daniel Verdades, Hugo Glória, Ivan Teixeira, Joaquim Silva, João Martins, Miguel Laureano, Paulo Horta, Pedro Machado, Renato Delgado, Sandro Esperança, Tozé Martins
Direcção de cena João Farraia

Grafismo João Gaspar

Edições Ângela Pardelha

Comunicação Levi Martins
11 OUTUBRO a 02 NOVEMBRO, 2014 | SALA PRINCIPAL // QUA a SÁB às 21h30 | DOM às 16h00
Duração: 2h15 M/16