quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Dia do leitor (implicado)



Leitor(es) com múltiplas leituras
No dia 7 de janeiro comemora-se o dia do leitor.
O leitor é constituído por uma pluralidade de conceções, como plurais também podem ser os autores. Existem vários tipos de leitores, segundo o dicionário de narratologia: o leitor real, o leitor virtual,  o leitor pretendido (uma "entidade projectada"), o leitor ideal (ambicionado pelo autor de um texto) e o leitor modelo, que tem competências narrativas perfeitas. Para complicar ainda mais, existe também o leitor fictício, o mesmo que narratário, ou seja, aquela entidade fictícia que está incluída na narrativa, a quem o autor do texto se dirige (um destinatário intratextual).

Mas provavelmente grande parte dos leitores está mais perto da definição de leitor implicado:
« [...] uma presença destituída de determinação concreta, não identificado, por isso, com o leitor real, sujeito virtual em função do qual o texto é construído como estrutura a descodificar. "[...] na cabeça do autor real, é a ideia de um leitor possível" (Genette) » - Reis e Lopes, 220
Esta multiplicidade mostra a complexidade de que se reveste a relação entre quem escreve e quem lê. Mas não poderia haver um leitor se não existissem autores ou escritores!


OUTRAS DEFINIÇÕES

Escritor
O escritor é a pessoa, entidade real, “firmemente localizada na história” (Alexander Nehamas) que idealiza e escreve a obra. Baseando-se na sua inspiração, “trabalha a sua palavra” (Roland Barthes), utilizando, para isso, as técnicas de composição, de género e de escrita, absorvendo-se funcionalmente nessa tarefa.
“O escritor é como um artesão que fabricasse seriamente um objecto complicado sem saber segundo que modelo nem para que uso.” - Barthes
Autor 
O autor não é “indivíduo” mas uma “entidade institucional”, legal, que pode ser “entendido como tendo produzido um texto particular quando o interpretamos (Nehamas), deixando a sua “chancela” nas obras - literárias ou outras (Ana Margarida Chora), sendo o responsável pela sua difusão e desejando ser “materialmente recompensado” (Carlos Reis).

Autor implicado
O conceito de autor implicado tenta escapar ao biografismo, que remete imediatamente para o autor e dessa forma responsabiliza-o ideológica e moralmente pela narrativa.
A diferença deste para com o narrador é que não participa directamente: será, antes, um “segundo eu” da/na diegese, uma «versão criada, literária, ideal dum homem real; [...] Até o romance que não tem um narrador dramatizado cria a imagem implícita de um autor nos bastidores, seja ele director de cena, operador de marionetas ou Deus indiferente que lima, silenciosamente, as unhas» (Booth).

Inter-relação entre conceitos
Em 1960, no seu ensaio intitulado “Escritores e Escreventes”, Barthes aponta a Revolução Francesa como um “momento simbólico” em que a linguagem se torna “pública”, deixando de estar exclusivamente em poder dos “escritores”. Segundo ele a escrita é apropriada por um novo grupo, os “escreventes”. A diferença entre estes e os escritores, segundo ele, é que os escritores funcionam dentro dos limites da instituição literária, estrutura intransitiva com regras próprias e distanciada do mundo social, enquanto que para os escreventes “a fala não é senão um meio”, são portadores de um pensamento livre “à margem das instituições e transações”.

O autor, por seu lado, é portador de uma “entidade biográfica e psicológica factualmente reconhecícel extratextualmente” (Helena Carvalhão Buescu). Para Foucault, “a noção de  autor constitui o momento forte da individualização na história das idéias, dos conhecimentos, das literaturas, na história da filosofia também e na das ciências.[...] uma espécie de foco de expressão, que, sob formas mais ou menos acabadas, se manifesta da mesma maneira, e com o mesmo valor nas obras...”. O autor não é simplesmente aquele que escreve e assina os textos; é aquele que lhes confere uma espécie de aura e descrito por Walter Benjamin como “uma figura singular composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante por mais perto que ela esteja.”

Passou-se a uma concepção do autor implicado como entidade personalizada, de estatuto muito semelhante ao narrador. O autor implicado corresponde assim a uma espécie de solução de compromisso, tentativa mitigada de recuperar para a cena da análise da narrativa uma responsabilidade que se não confunda com a do autor propriamente dito. Para S. Chatman, o autor implicado «não é o narrador, mas antes o princípio que inventou o narrador, bem como todo o resto da narração» (Chatman). O autor implicado não projecta no texto a marca da sua presença. Pode ser responsabilizado, quando muito, por uma atitude de harmonização global da narrativa, exercendo sobre o leitor um efeito que é o de permitir «a percepção intuitiva de um todo artístico completo» (Booth).

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHES, Roland - O Grau Zero da Escrita (Lisboa, 1989); “Escritores e Escreventes”, in Ensaios Críticos (Lisboa, 1977);
BOOTH, W.C. – A retórica da ficção (Arcádia, 1980);
CARDOSO, Miguel - Escritor/escrevente (écrivain/écrivant) - E-Dicionário de Termos Literários da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa – Edição e Organização de Carlos Ceia  (www2.fcsh.unl.pt);
CHATMAN, S. – Storia e discorso. La struttura narrativa nel romanzo e nel film (Pratiche Editrice, 1981);
FOUCAULT, Michel - O que é um autor (Vega, 2002), e BENJAMIN, Walter - A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Sobre arte, técnica, linguagem e política (Ed.Relógio d'Água) - in http://recantodasletras.uol.com.br; 
LANSER, S.. S. – The narrative act. Point of view in prose fiction (Princeton Univ. Press, 1981);
REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M. – “Dicionário dee Narratologia” – (Almedina, 1990);
REIS, Carlos – “O Conhecimento da Literatura - Introdução Aos Estudos Literários” (Almedina, 2008);
SILVA, Marcia Rios da. - Estampa de Letras: Literatura, linguística e outras linguagens (Quarteto, 2004);




Imagem:
Giuseppe Arcimboldo (1527 - 1593)
The Librarian (1566),

71 x 97 cm (27,9 x 38,1 inches), óleo sobre tela

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Vou microcontar-vos as janeiras


"O rapaz com pregos nos olhos,
Montou a sua árvore de Metal.
Parecia muito estranha
Porque ele realmente via mal."
Tim Burton, in A morte melancólica do rapaz ostra & outras estórias.

Micro-conto de Natal. Para celebrar a época natalícia. 
Neste caso, para festejar o fim de uma. Enquanto aguardo pela próxima, vou lendo e relendo outros micro-grandes contos de um enorme Senhor da criatividade.


domingo, 4 de janeiro de 2015

Homens e Deuses I : Odisseia, de Homero


Viagem à volta de um clássico
em (mais ou menos) 380 palavras


Não posso considerar a minha ingressão pelas histórias épicas como um processo pacífico. A minha imaturidade (confesso) não podia continuar a ser uma desculpa, nem a motivação uma obrigação. Algumas histórias pelas quais já percorrera (algumas sob a forma de peças de teatro – um género que me apaixona particularmente) causaram um certo interesse mas a “impaciência, distracção e inexperiência”, da juventude, como tão bem analisa Italo Calvino numa das suas organizadas definições de “clássicos”, terão impedido uma “evolução” literária no sentido dos clássicos.

Com pouco ou muito sentido, o início foi como um barco que não consegue ultrapassar a rebentação das ondas mais próximas da praia. Até que cheguei a uma “ilha” de sensações que me levaram a um mundo inimaginável, só imaginado por um escritor como Homero. Apesar de não poder ser considerada como um registo histórico, mas uma “realidade fictícia e literária” (Romilly), a sua linguagem será inspiração para a literatura grega clássica.

Uma das razões para que esse mundo nos faça sonhar são as suas personagens, quer sejam homens ou deuses grandiosos, que ele aproxima com mestria a características tão humanas. Quando Telémaco diz a Ulisses, depois deste voltar à sua “forma normal”:
«Há bocado eras um ancião, coberto de sórdidas roupas; e agora assemelhas-te aos deuses [...]» - Odisseia, canto XVI
ou no episódio da ilha de Eeia, onde vive a “terrível deusa de voz humana”, Circe dos belos caracóis (Odisseia, canto X), essa comparação é evidente. A crueldade da deusa, aliada à sua beleza, numa aparência tão humanizada que se torna inverosímel e “extra” terrestre, criam um intrínseco mas interessante paradoxo. Como pioneiro da mitologia grega, Homero enaltece, nos deuses, as qualidades e defeitos dos homens num nível muito superior. Aos deuses são-lhes conferidos atributos mortais (ciúme, infidelidade, humor) – tal como na tragédia grega. Mas não nos podemos esquecer que são “seres” imortais e presentes onde menos se espera.


Nesta simbiose Homero consegue envolver-nos nas suas histórias, quer identificando-nos com valores como a família (a busca de Telémaco pelo pai, ou do desejo inquietante deste de regressar a casa) ou a fidelidade (de Penélope, que aguarda pelo regresso de Ulisses, não sabendo sequer se este está vivo ou morto, fazendo e desfazendo a sua teia como uma desculpa alongada para fugir aos pretendentes que não ama).
Outra das razões que aliciam o interesse do leitor são as descrições que o “transportam” para as histórias, como por exemplo na cena no país dos Feaces, quando Nausícaa (depois de acordada pela deusa Atena, que lhe aparece num sonho) vai, acompanhada pelas aias, ao rio lavar roupa (e onde virá a encontrar Ulisses):

«A donzela trazia dos aposentos os vestidos cintilantes. Enquanto ela os pousava sobre o carro bem polido, a sua mãe metia num cesto mantimentos, guloseimas de todas as espécies, e deitava vinho num odre em pele de cabra.» - Odisseia, canto VI 

Podemos imaginar facilmente, com interesse, o episódio, mas igualmente interessante são as interpretações que os artistas têm atribuído a inúmeras outras cenas, como, por exemplo, Christoph Amberger, o pintor alemão que no século XVII, no seu quadro “Odisseu e Nausícaa” (1619), nos mostra como Ulisses aparece todo nu a Nausícaa (um pouco mais à frente no canto referido).
«(...) o ilustre Ulisses saiu da moita; na espessa floresta, ele partiu com a sua forte mão um ramo revestido de folhas para assim cobrir o seu corpo e esconder o seu sexo. [...] Assim Ulisses ia ao encontro das virgens de lindos caracóis, inteiramente nu como estava; mas a necessidade instigava-o. [...] elas fugiram cada uma para seu lado, dispersas pelas margens. Só a filha de Alcínoo ficou, pois Atena pusera ousadia em seu espírito, eliminara o medo dos seus membros.» - Odisseia, canto VI

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALVINO, Italo – Porquê ler os clássicos (Teorema, 1993);
HAMILTON, Edith – A Mitologia (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983);
HOMERO – Odisseia (Publicações Europa-América, 2000);
PEREIRA, Maria helena da Rocha – Estudos de História da Cultura Clássica, I Volume (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2006);
ROMILLY, Jacqueline de - Homero, Introdução aos poemas Homéricos ( Lisboa, Edições 70, 2001); A Tragédia Grega  (Edições 70, 1997);

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A Vida do Céu à Terra


O sol, o dia e as águas
Num dia de janeiro
Juntaram-se e fizeram
O seu pacto primeiro

O jogo fica, embala
E dura, longo até junho
E em voz estridente soaram,
Gritaram: - É para vós este mundo!

Não sentem dizer:
Estou aqui, era inteiro
Até que vós me magoastes.
É pois, este, o acto III.

A estação, neste mês,
Esconde o frio, é um escudo
Como negra viuvez
Tal inverno sisudo

A chuva, então, a cantar
Cai na terra e ajuda a videira
A sua uva nascer, a brotar
Diz, já fruto, à sua parteira:

-Tão boa, tão fresca tu és
Nesta vida já vivo e bem fundo
P’ra beber só tenho a raiz
P’ra viver tu és água, és tudo.

A madrinha esconde a sorrir
A modéstia que é vez primeira.
Não a vemos pois está a fugir
Tal a chuva na tarde soalheira.

Vai embora, não diz quando vem
E as flores aguardam, contando
Às roseiras, avós de sua mãe
As histórias que haviam escutado.

Imagem: detalhe de Fluid Painting 58 (2012), acrílico sobre tele,
Mark Chadwick (www.markchadwick.co.uk)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O fantasma e outras artes (Ensaio Intersemiótico)


As diversas naturezas na arte comunicam entre si. É necessária uma intersemiótica capaz de descrever dois sistemas diferentes, mantendo uma “linguagem” comum aos sistemas em estudo. Álvaro Manuel Machado e Daniel Henri-Pageaux consideram que «a Literatura Comparada é uma orientação metodológica interdisciplinar» , numa confluência comparativista entre os conhecimentos sobre o fenómeno literário e o fenómeno cultura (a literatura comparada).

A relação da literatura e as outras artes (como a pintura, a escultura, a música, a fotografia, o cinema, a ilustração, a banda desenhada, a arquitectura ou a dança), e destas com a literatura, é uma constante ao longo do tempo e da História: escultura e literatura (Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke) ou literatura e música (Thomas Man e Wilhelm Richard), por exemplo. É comum vermos, lermos ou ouvirmos obras que nos remetem para outras artes e é igualmente interessante constatar como os artistas utilizaram ou utilizam as mais diversas técnicas para fazer transmitir a sua mensagem.

“O Fantasma da Ópera” será um perfeito exemplo de (mais do que de influência) uma “osmose”  entre as artes. Na imortal obra literária, escrita em 1910 pelo francês Gaston Leroux (1868-1927), o autor conjuga a sua imaginação a alguns factos reais, como o existente lago subterrâneo da Ópera de Paris (actualmente chamada Ópera Garnier ou Palais Garnier), depois de uma visita ao labiríntico local (onde se terá perdido) ou como o episódio da queda do enorme lustre sobre uma lotação esgotada (“acidente” aparentemente causado por um militante anarquista que terá colocado uma bomba no lustre). Curiosamente, (o tempo e a “maturidade” - ou devo dizer reconhecimento - do público tem destas coisas) a obra não foi um sucesso imediato, mas terá aos poucos conquistado o seu lugar merecido de obra-prima. Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle, Stendhal, Alexandre Dumas e Vitor Hugo (e até a sua carreira como jornalista) terão influenciado a escrita de Leroux.

Gaston Leroux - Le Fantôme de l'Opéra.jpg
Edição francesa de 1920

Apesar de ser mundialmente (re)conhecido pelas suas músicas, a primeira versão cinematográfica de “O Fantasma da Ópera” foi um filme mudo (e em preto e branco) de 1925, saído dos estúdios da Universal (Estados Unidos da América), produção na qual Leroux esteve envolvido. Em 1943 Arthur Lubin faz a sua própria adaptação, já a cores, com milhares de cantores e um orçamento bem mais generoso. Outras versões no cinema se têm seguido, nas quais os seus realizadores (como Brian De Palma ou Joel Schumaker – com o qual o filme esteve nomeado para três categorias nos Óscares© da Academia) deram mais ou menos destaque ao carácter humano, ao terror, à tragédia ou ao romance do enredo.

Poster do filme, 1925

Mas é no teatro musical que a obra de Leroux é reconhecida. A peça (de grande sucesso) é trazida ao palco (mais precisamente do The Duke’s Playhouse, em Lancaster, Inglaterra) pela primeira vez em 1976 pelo encenador e dramaturgo britânico Ken Hill (1937-1995).

É difícil dissociar “O Fantasma da Ópera” do género musical. Igualmente interessante é constatar que Hill conseguiu enriquecer a sua interpretação contemporânea através da adaptação de obras de compositores como Jacques Offenbach (“Jamais, foi de Cicerone", de La Vie Parisienne), Charles Gounod ("Maudites soyez-vous", de Fausto), Giuseppe Verdi  ("O inferno! Amelia qui!", de Simon Boccanegra), Arrigo Boito ("Son lo spirito che nega", de Mefistofeles), Antonín Dvorák (“Mesicku na nebi hlubokém", de Rusalka), Georges Bizet ("Je crois entendre encore", de Les Pêcheurs de Perles), Carl Maria von Weber ("Du weißt daß, meine Frist", de Der Freischütz), entre outros.

Uma década depois é a vez do premiado compositor e produtor britânico Andrew Lloyd Webber fazer a sua própria adaptação musical, que estreia no West End de Londres. Desde então tem corrido o mundo, mantém-se ainda em cena no Her Majesty’s Theatre, em Londres (onde se estreou e onde assisti em 2004) e é considerada a mais bem sucedida peça de entertenimento de todos os tempos. Por muitos outros séculos outros tantos artistas serão influenciados por esta (e tantas outras) obras artísticas.

The Phantom of the Opera (Broadway) January 26, 1988 Book by Richard Stilgoe & Andrew Lloyd Webber, Music by Andrew Lloyd Webber, Lyrics by Charles Hart, Directed by Harold Prince Shown: Michael Crawford (as The Phantom of the Opera), Sarah Brightman (as Christine Daae`) This is a PR photo. WENN does not claim any Copyright or License in the attached material. Fees charged by WENN are for WENN's services only, and do not, nor are they intended to, convey to the user any ownership of Copyright or License in the material. By publishing this material, the user expressly agrees to indemnify and to hold WENN harmless from any claims, demands, or causes of action arising out of or connected in any way with user's publication of the material. Supplied by WENN.com
Michael Crawford (como Erik, o Fantasma), Sarah Brightman (como Christine Daae`) em The Phantom of the Opera (Broadway) 26 de janeiro, 1988, Libreto de Richard Stilgoe & Andrew Lloyd Webber, Música de Andrew Lloyd Webber, Letra de Charles Hart, Encenação de Harold Prince Shown

«A multiplicidade de sistemas autónomos de criação e comunicação, sensoriais e linguísticos, não deve ser fechada em si mesma [...]» - André-Michel Rousseau. 
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REFERÊNCIAS BIBLIO E WEBGRÁFICAS

  MACHADO, Álvaro Manuel e PAGEAUX, Daniel-Henri (1988) - Da literatura comparada à teoria da literatura, Lisboa, Edições 70;
  PAGEAUX, Daniel-Henri (1994) – Littérature et Arts, Paris, Armand Colin Éditeur;
  ROUSSEAU, André-Michel (1977) - Artes e Literaturas: um “estado presente” e algumas reflexões, Synthesis;

Ópera de Paris: www.operadeparis.fr  |  http://oficinadeteatro.com/artigos/materias-especiais/90-opera-garnier-o-espirito-de-paris  |  http://pt.wikipedia.org/wiki/Opera_Garnier;
“O Fantasma da Ópera” na Literatura: Gaston Leroux - www.gaston-leroux.net;
“O Fantasma da Ópera” no Teatro: www.kenhillsphantomoftheopera.co.uk | http://www.thephantomoftheopera.com;
“O Fantasma da Ópera” no Cinema: http://homevideo.universalstudios.com/monsters/phantom.html.

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Primeira imagem: Fotograma do filme O Fantasma da ÓperaUniversal Pictures, 1925. Direção de Rupert Julian.  Com Lon Chaney  (como Erik, o Fantasma), Mary Philbin (como Christine Daae`)



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Luar (doce) de Natal (Conto, 2009)



Enquanto percorria as ruas da cidade, principais artérias de uma baixa em alta tensão, devorava, lambia a cidade com os olhos, esbugalhados de fome e “comia” com gosto, com esses mesmos olhos, as luzes de Natal, como se fossem chocolatinhos embrulhados em papel delicado de alumínio.

- Que delícia! - pensava.

Ninguém lhe perguntava porque ia ele a sorrir, num autocarro apinhado, atafulhado de pessoas, de sacos, tantos com presentes. Ele continuava a pensar:
- É tão bom o frio que está lá fora. Aqui dentro está quentinho... hum! - estava feliz.
Em casa, enquanto a mãe embrulhava os presentes com jeitinho e movimentos quase coreografados mas delicados, ele embrulhava, sem papel, com beijinhos cheios de carinho, os pensamentos, bem arrumadinhos, para os entregar na noite especial.

Na noite de Natal, depois de ter desembrulhado os beijinhos todos e distribuído pelas pessoas que se juntaram à volta da grande árvore, a mãe chegou-se ao pé de si e disse-lhe ao ouvido:
- Não faz mal, não faz mal!
Apressadas, quase stressadas por nunca mais chegar a sua vez, as crianças esqueceram (ou nunca chegaram a saber?) todo o amor que ali se vivia. Nas mãos pequeninas, de crianças ainda mais pequenas, imensos brinquedos e nenhum, nem um só beijinho saiu de lá.
- Vá lá, não faz mal. P’ró ano há outro Natal!
O menino não chorou, porque a mãe lá ficou e ao seu lado o amou. Quando à noite se deitou, lembrou, lembrou, lembrou, que afinal o tal beijo que quis dar a toda a gente, voltava sob a forma de um queijo que a lua devorou. Essa, estava lá fora, alta, por entre as árvores escondida a devorar, tão contente, os tantos carinhos que ele tinha oferecido como presente.


domingo, 21 de dezembro de 2014

Arte e(m) multimédia : O projecto Media Art Net


 GFP Bunny (2000), Eduardo Kac


Toda a arte (incluindo a arte multimédia ou digital) devia estar num museu
Reformulando a minha própria frase (anterior), diria antes que a Arte “está” num museu. Aliás, em milhões de “museus” por todo o mundo, numa “casa” que já “apropriámos” e a que se “chamou” internet. Isto porque, se procurarmos nos sítios certos (e por vezes, até através dos mais incertos), encontramos arte sobre todas as formas e feitios nesse maravilhoso “mundo” (ou universo?). A literatura, a música, o design, a escultura, o cinema, a fotografia e tantas outras formas de arte (incluindo os próprios museus) podem ser vistos e ouvidos (e sentidos) “online”!
"All media are extensions of some human faculty- psychic or physical […] the wheel is an extension of the foot, the book is an extension of the eye, clothing an extension of the skin, electric circuitry an extension of the central nervous system" (1)The Medium is The Message, Marshall McLuhan  
O projecto Media Art Net (que se pode aceder em www.mediaartnet.org) foi concebido por Dieter Daniels e Rudolf Frieling, com fundos do Ministério de Pesquisa e Educação da Alemanha, apoiado pelo Goethe-Institut e pelo Centro para a Arte e Média  , que tem como objectivos estabelecer: a) uma estrutura cibernáutica que oferece, gratuitamente, conteúdos altamente qualificados, numa variedade de tópicos relacionados com os média e a arte; b) teorica e audio-visualmente formas convincentes de relações e referências que atravessam os limites do género.

Este meio, só por si, é já a mensagem que eu pretendo transmitir (pegando nas visionárias palavras de Marshall McLuhan). Quem visita o “sítio” deste projecto, pode aceder aos assuntos através de diferentes abordagens: pelos sumários visuais (explorando), pelo índice ou pelo motor de busca (pesquisa específica). Reúne informação deveras interessante, quer pelo seu aspecto científico e histórico, quer pela sua perspectiva artística, não se tratando de um meio que é, por si só, um objecto artístico (embora possamos reflectir sobre o web-design como uma inovadora forma de arte multimédia) – inúmeros exemplos deste género abundam na World Wide Web   - mas antes de um veículo para a informação artística. Num primeiro momento, podemos visitar as posições históricas e actuais, assim como os contextos da arte multimédia (uma espécie de “overview”).

Num segundo momento, podemos ir ao encontro dos oito tópicos temáticos :

1 | Estética do Digital
Os discursos e tendências que nos ajudam a entender as teorias estéticas, assim como a simbiose entre os pensamentos científico, artístico, sistémico e dos média;

2 | Relação entre Som e Imagem
Os movimentos vanguardistas do século XX e a relação entre as inovações tecnológicas e as novas formas de expressão artística;

3 | Corpos “Cyborg” 
As representações tecno-orgânicas e híbridas, os corpos sintéticos ou corpo-máquina;

4 | Foto/“Byte” - como a fotografia revolucionou a produção, a distribuição e a percepção das imagens, desde o analógico ao digital;

5 | Arte e Cinematografia 
Como o filme, chamado já de “velho” new media, é importante para entender os novos média e a arte multimédia;

6 | Mapeamento e Texto
Investigação a diferentes áreas e campos de interesse que “emergiram” entre a imagem e o texto;

7 | Ferramentas Geracionais
A software art – poderão as formas de arte ser geradas apenas de/pelo software?;

8 | Esfera_S Públicas 
A privacidade individual, espaço também de intervenção e crítica aberto à participação do público.

Curiosamente, todos estes tópicos formam uma visão sobre a «Obra de Arte Total» (a lembrar Wagner), uma espécie de “ópera” interactiva, onde as diversas linguagens artísticas, as diversas culturas (oral, visual e electrónica), de que falava McLuhan, se cruzam numa rede (net) sem rede (sem medo de cair no esquecimento porque faz parte já da história e da evolução do Homem e da Arte), que nos separa (fisicamente) e aproxima (virtualmente), como que uma “retribalização” na aldeia global que é esta nossa sociedade cada vez mais aberta. E, quase sem nos apercebermos, vivemos já num futuro. Temos, “apenas”, de estar atentos aos nossos sentidos e percepções.
"You see, Dad, Professor McLuhan says that the environment that man creates becomes his medium for defining his role in it. The invention of type created linear, or sequential thought, separating thought from action. Now, with TV and folk singing, thought and action are closer and social involvement is greater. We again live in a village. Get it?" (2) - The New Yorker Magazine 1966 - The Medium is the Massage
Eduardo Kac, «GFP Bunny», 2000


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(1)"Todos o media são extensões de alguma faculdade humana - física ou mental [...] a roda é uma extensão do pé, o livro é uma extensão do olho, a roupa uma extensão da pele, o circuito elétrico uma extensão do sistema nervoso central." O Media é a Mensagem, Marshall McLuhan  

(2) "Vês, pai, o Professor McLuhan diz que o ambiente que o homem cria torna-se o meio (media) para nele definir o seu papel. A invenção da tipografia criou um pensamento linear ou sequencial, separando o pensamento da ação. Agora, com a televisão e a música popular, o pensamento e a ação estão mais próximos e o envolvimento social é maior. Vivemos novamente numa aldeia. Entendeste?" - The New Yorker Magazine 1966 - The Medium is the Massage